segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Eleições

Estava querendo publicar algo relacionado às eleições, mas sem ser aquele arroz com feijão, do tipo "vamos votar consciente dessa vez, serão quatro anos de mandato, blablabla whiskas sachê". Então fiz um apanhado (e vou apanhar de tanto que escrevi) de tudo o que vi recentemente (e, claro, dando meus pitacos).


E-mails

É estressionante ver como diariamente trocentos e-mails relacionados à política chegam a mim (e outras milhares de pessoas). O problema não é receber algo relacionado à política, e sim ver que invariavelmente esses textos (geralmente mal escritos) têm a simples missão de denegrir um dos candidatos à presidência do Brasil. Abusando da ética, começam a surgir informações das quais ninguém, nem os próprios candidatos, sabiam. Tal candidato (não) falou isso, e tal candidato (não) fez aquilo! Só hoje eu recebi três e-mails de uma amiga: um falando dos votos nulos, e dois falando da Dilma.

Quanto ao voto nulo, há uma corrente antiga circulando na internet pregando que se 51% dos votos válidos para um dos cargos forem nulos, as eleições para aquela(s) cadeira(s) deverão ser refeitas com candidatos diferentes dos que participaram dessa candidatura. Numa rápida pesquisa na internet, vê-se que a corrente existe desde 2000 e até agora tem força, mas que não faz sentido algum. De fato, há uma maneira de anular as eleições: com nulidade de votos (e não votos nulos) maior que 50%. A nulidade ocorre quando qualquer elemento do voto torna-o inválido (fraudado). Se essa porcentagem for alcançada, uma nova eleição deverá ser realizada em aproximadamente um mês, mas não há qualquer constatação de que o novo pleito deverá ser realizado com candidatos diferentes.

Quanto aos e-mails da Dilma, um fala de uma suposta afirmação da candidata que teria sido feita durante a inauguração de um comitê em Minas Gerais. Reproduzirei os pontos mais críticos:

"Após a inauguração de um comité em Minas, Dilma é entrevistada por um jornalista local. veja:

como a senhora vê o crescimento da sua candidatura nas pesquisas?

O povo brasileiro sabe escolher, é a continuidade do governo Lula, e após as eleições nós vamos dessarmar o palanque e estender os braços aos nossos adversários, o candidato Serra está convidado a participar do meu governo, porque nesta eleição nem mesmo cristo querendo, me tira essa vitória, as pesquisas comprovam o que eu estou dizendo, vou ganhar no primeiro turno.

[...]

Poucos minutos após a entrevista, já tinha caido na internet, twitter.... e ela disse ter sido mal interpretada e que a frase não foi essa, porém alguns mineiros já repudiam a candidata e o quadro eleitoral começa a dar uma reviravolta, em Minas a petista estava a frente de José Serra e agora Serra já ultrapassou com uma vantagem de 5 pontos, tanto que Aécio Neves já está aparecendo na TV pedindo aos mineiros o apoio unanime a Serra.

IMPORTANTE: a Dilma já está até sentando na cadeira presidencial, dá pra acreditar.

[...]

DILMA, a favor do Aborto e Acima de Jesus Cristo. até o Papa no vaticano já se manifestou contra essa frase."


Jogando o trecho da suposta afirmação da candidata no Google, dá para ver que vários blogs publicaram esse texto, na íntegra, sem ter ideia da veracidade ou não do que foi escrito. Em alguns casos, antes da matéria havia uma assinatura do G1 (portal da Globo), tentando assegurar a autenticidade do texto. Buscando no G1, não há qualquer matéria com essa afirmação da candidata. Ou seja: pessoas analfabetas radicalizando nas tentativas de denegrir um candidato.

O terceiro e-mail contém uma série de slides apontando uma suposta parcialidade do Ibope nas pesquisas dos presidenciáveis. Um dos slides, chamado "RESUMO/BR", faz uma radiografia das cidades em todo o país que teriam sido entrevistadas pelo instituto.

"Total de prefeituras do PSDB: 785
Total de prefeituras do PT: 547

Cidades do PSDB/Coligados entrevistadas: 39
Cidades do PT/Coligados entrevistadas: 132
2 cidades do PV

Total de cidades: 173
Total de entrevistas: 5.506
Total de eleitores: 134.080.517"


Não há citação da fonte originária dessa produção. Jogando um trecho dos slides no Google, vários blogs (para variar) aparecem comentando o assunto, alguns contendo bastante informação. Apesar de, particularmente, não acreditar em pesquisas de qualquer gênero por diversas razões (por exemplo, de cerca de 30 pessoas com quem conversei, 25 votarão na Marina, e veja só onde ela está nas pesquisas [é claro que isso depende de cada região e cada realidade, o que reforça a minha descrença em pesquisas]), sei que sem pensarem na veracidade disso as pessoas espalharam o e-mail com o simples intuito de apontar manipulação por um partido político. Ou seja: a internet facilitou o esquecimento da ética para o uso de mensagens apelativas e falsas para denegrir os candidatos!

PS: não duvido de manipulações (e quem duvida?), por mais que essa tenha ou não sido forjada, ou erros involuntários em pesquisas.

A internet tornou-se parte fundamental das campanhas políticas. Infelizmente, um dos meios de promoção de determinado candidato é justamente denegrir o outro. Esses e-mails que recebi hoje não continham pedidos diretos de votos, mas todos conhecemos pelo menos uma pessoa que fala mal de um candidato para engrandecer outro. Não?


Marina

Grande parte das discussões realizadas próximas à mim parecia tiroteios ideológicos. Quase invariavelmente um dos lados, ao saber que outra pessoa apoiava outro candidato, falava tudo de ruim que ouvira falar dessa pessoa. As conversas não envolviam mais as propostas, e sim a Dilma ter roubado bancos e matado inocentes ("Mas ela vivia em outra realidade", dizem) e o Serra ter envolvimento com paraísos fiscais e ser aversivo à pobres (pode ser que não chegue a esse ponto, mas vamos combinar: 'Zé' Serra foi inacreditável). Dados relevantes? Sim! Mas não são eles que devem prevalecer nas eleições! Dessa maneira as pessoas tentam eleger a pessoa com o histórico menos sujo (o famoso "menos pior") sem destacar necessariamente o que eles têm de bom. As discussões políticas ficaram totalmente imbecis. É irritante ver como grande parte das discussões envolvem esse método simples de denegrir um candidato.

Uma das razões de eu ter escolhido a Marina Silva é o tipo de eleitor dela. Li um artigo inteligentíssimo de um amigo da minha mãe, no qual ele mostra apoio à Marina pela mesma razão que eu e muitos outros. Diferente dessa rixa entre Serra e Dilma, os eleitores da Marina estão mais empenhados em enaltecer suas qualidades do que denegrir os outros candidatos. Basicamente todo mundo que eu conheço votará nela.

Candidata diferente, talvez exagerando um pouco nas marteladas em assuntos relacionados à Sustentabilidade (tanto quanto o Serra exagera na Saúde ["hipocondríaco", segundo Plínio], a Dilma no seu parentesco com Lula [Lula + Frankenstein = Dilma?] e o Plínio nas piadas [que convenhamos, são divertidas e alegram os debates, fraquíssimos]), mas geralmente mostrando compreensão sobre diversos temas de relevância. Expõe sua história de superação diante de doenças e analfabetismo como sinal de que entende do que o país precisa. E, certamente, de pobreza ela entende mais que o Plínio, a Dilma e o Serra juntos. No debate da Record, realizado no dia 26, ela agradeceu a todos os eleitores jovens que estão fazendo campanha gratuita para ela. Fale que a mentalidade desse eleitor não é totalmente diferente dos outros, que ficam se matando?

O país está cansado de conviver com as políticas do PT, PSDB, e os seus coligados. No Estado de São Paulo, os petistas e derivados pedem que o PSDB "não exerça a continuidade no poder". É uma frase feliz (ou infeliz?) pois, se creem nisso, deviam se lembrar de que o PT está no poder do país há oito anos, então o partido também devia pular fora. Não sabemos da competência da Marina para governar o país (a Dilma, sabemos, não governaria - ela tem uma boa imagem graças ao Lula [que governaria por ela?]; o Serra tem grande experiência política, mas pode tender a seguir a política do PSDB de elitismo [eu vi um candidato a deputado federal do PSDB prometer que criará uma lei para evitar quebra de sigilo bancário {POR QUE NÓS POBRES LIGARÍAMOS PARA ISSO!?}]). Por isso, acho válido dar uma chance ao PV. O PT ou o PSDB no poder só manterá esses dois lados brigando sempre, e o PV não teve até agora a chance de mostrar o que pode fazer. Não é para mudar? Então mudem direito.


Mídia

Lula repudiou a imprensa brasileira e vice-versa atualmente. Ficou nítido que a maioria dos veículos é contra o PT, e tornou-se corriqueiro os jornais publicarem chamadas fortes contra o partido. A Veja publicou recentemente várias capas criticando o presidente e a possível sucessora. O Lula, no seu direito de comentar, mostrou-se contra a posição da mídia, obviamente. Errado o fato de a mídia repudiar a crítica dele. Afinal, ela critica tanto o homem, e ele tem o direito de responder. O problema é que a grande mídia entendeu a continuidade do PT como um problema, e fez valer o seu direito de lutar pelo "justo", ainda mais depois de sucessivas e discretas tentativas de haver uma manipulação do poder por parte do PT (lembram da Dilma falando 'what the fuck esse artigo de controlar a mídia fazia no meu plano de presidência?'?).

Parcialidade? O Estadão confirmou isso no editorial chamado 'O Mal a Evitar' do dia 25 de setembro. Declarou abertamente apoio ao Serra. Isso é algo a que não nos habituamos a ver - a mídia admitindo sua parcialidade. Demorou para isso acontecer, na verdade, pois já era óbvio, mas antes tarde do que nunca, é admirável (ou menos vergonhoso?) que o veículo tenha tomado essa atitude. Na faculdade, ouvimos muito falar de imparcialidade, mas sabemos que, em determinados momentos, se for por uma boa causa (e não para fazer jornalismo marrom), devemos fazê-lo. Os demais veículos contra o PT não tomaram o mesmo partido, e provavelmente não arriscarão publicar algo do gênero. A Istoé, pelo contrário (e sem admitir), está apoiando o PT, o que ficou bem visível na matéria de capa 'A onda vermelha' publicada em 24 de setembro. É difícil saber se as atitudes dos veículos são virtuosas, pois eles mesmo é que costumam deter as informações e conflitá-las. É tanta incoerência que temos dificuldade em saber o que mais se aproxima do correto, e a ideia jornalística de um veículo ser formador de opinião chega a ser preocupante.


Palhaçada

Tiririca, Netinho, Mulher Pera, Mulher Melão, Tati Quebra Barraco, Reginaldo Rossi, Leandro e Kiko do KLB (dobradinha musical em cargo estadual e federal [rima animal]), Batoré, Ronaldo Esper, Vampeta, Marcelinho Carioca e Dinei (Corinthians em massa), Tulio Maravilha, Bebeto, Romário, (já temos meio time de futebol), Maguila, Gretchen. Eis alguns dos candidatos a deputado e senador no Brasil.

Pode parecer que viver de música, futebol e humor não rende muito. Às vezes, não rende mesmo. Pode ser uma das razões para que esses candidatos estejam aí. Mas imagina-se que eles mal saibam a função de um vereador, muito menos a de um deputado estadual e federal ou de um senador (Tiririca diz: "O que é que faz um deputado federal? Na realidade eu não sei, mas vote em mim que eu te conto"). Então por que estão aí? Cabos eleitorais! O Tiririca é um dos melhores exemplos atuais para isso: um palhaço sendo eleito para tratar de política, considerada palhaçada por muita gente. Muito provavelmente será eleito por essa combinação de sua função com a imagem da política. E o que acontece com isso? Pelo sistema proporcional das eleições aplicado esse ano, os votos de um candidato também elegem outros candidatos do partido/coligação.

Fazendo um cálculo meio insano (levando em consideração candidatos, partidos e eleitores em determinada região), o Tiririca poderá levar um monte de candidatos, como o Agnaldo Timóteo (cantor, que como vereador de São Paulo tentou mudar o nome do parque do Ibirapuera para parque Michael Jackson), Valdemar Costa Neto (que renunciou do cargo de deputado federal em 2005 para escapar da cassação após ser acusado de participar do mensalão), Luciana Costa (que assumiu o lugar deixado pelo Enéas Carneiro [saudades das propostas de fazer bomba atômica no país]), Milton Monti (deputado federal que tentou tornar obrigatório o ensino de LATIM nas escolas brasileiras [muita gente se forma sem nem saber português, e ele quer implantar o latim?]) e o pastor Paulo Freire (que é contra a adoção por casais gays, direito reconhecido pelo Supremo Tribunal de Justiça).

O exemplo mais famoso desse evento ocorreu em 2002, quando o Enéas foi eleito com votos suficientes (1,5 milhão de votos) para levar consigo outros cinco candidatos. Um desses políticos, Vanderlei Assis, entrou recebendo apenas 275 votos nominais e, logicamente, fez presepada e renunciou após envolvimento em um escândalo. *com informações da Folha

Ou seja: a palhaçada de eleger gente como o Tiririca muito provavelmente comprometerá a eficiência da política no âmbito nacional.

PS: é sério que tem gente que vai votar no Netinho? Qual é a ideia? Pedir para ele implantar a lei João do Tatuapé para contrariar a Maria da Penha e, a exemplo dele, podermos bater nas mulheres? Vi esse comentário em uma matéria no site da Folha:

"Netinho errou feio neste caso de bater em mulher, é lamentável, votarei resignado mas votarei nele, como um homem erra e tem a chance de se aperfeiçoar eu espero que ele tenha se perdoado e aprendido que em mulher não se bate nem com uma flor, é uma atitude repugnante sem dúvida essa que ele cometeu no passado."

O cara não vai ajudar o país de maneira alguma, representa um retrocesso (e a ignorância das pessoas), será eleito e levará alguns colegas junto. É mole?


Ficha Limpa

Parece outra palhaçada ver como metade dos ministros do país insistem em votar contra a aplicação imediata da Ficha Limpa, alegando inconstitucionalidade, cláusula pétrea e qualquer outro termo complicado para a "segurança" do país. Depois de mais de 10 horas de discussão, encerrada na madrugada do dia 24, cinco ministros votaram a favor e cinco contra a aplicação imediata. O voto definitivo seria o do 11º ministro, cuja cadeira está vaga desde a aposentadoria do Eros Grau.

Segundo consta na mídia, apesar do empate a lei está em vigor, por não ter sido considerada inconstitucional, e os candidatos fichas-suja terão de recorrer à Justiça e depender da palavra final do Supremo Tribunal Federal. Em uma entrevista publicada numa matéria no Estadão:

"Como ficam as eleições?

A lei não foi declarada inconstitucional. É uma vitória, mas vai causar bastante confusão. Num plenário com 10 ministros, 5 reconheceram que a lei da Ficha Limpa não viola a Constituição. Temos uma lei que vale para essa eleição. Isso é muito importante. A frustração teria sido maior ainda se a maioria dos ministros tivesse votado pela inconstitucionalidade."


Se valer mesmo para agora, ótimo! Fico pensando se inventarem de analisar as candidaturas após as eleições. Nisso, Maluf e companhia terão sido eleitos, levando seus coleguinhas às cadeiras nacionais, e mesmo se mais votados forem chutados, alguma sequela ficará ali (leia-se políticos como Vanderlei Assis, que entrou graças ao Enéas e fez cagada), a não ser que os votos sejam anulados ou outra providência seja tomada (talvez alguma medida já existente da qual eu não tenha conhecimento). Isso sem falar no Joaquim Roriz, ex-candidato ao governo do Distrito Federal, que foi barrado pela Justiça e resolveu lançar a esposa como candidata nos últimos dias. Putz.


Lixo

É incrível como o mundo real e o virtual estão sujos com as propagandas! Fiquei com muita vontade de fazer igual aos responsáveis por um canal do Youtube chamado Vandativismo, no qual o único vídeo hospedado é uma resposta aos políticos (e os responsáveis pelas propagandas) que entopem as cidades de cartazes e cavaletes. A Justiça intensificou a fiscalização dessa propaganda, proibindo a colocação de cavaletes em canteiros e locais que atrapalhem a circulação. Nas propagandas que não respeitam a lei, chutes, fogo, e sprays (indicando o número da lei que proíbe isso).

Na internet, as comunidades (pelo menos no Orkut) viraram palco de discussões infames, do tipo que comentei no início do texto. Além disso, há diversas propagandas inúteis, a ponto de candidatos tentarem fazer apelos emocionais. Em comunidades de São Luiz do Paraitinga (cidade em que morei, atingida por uma enchente no início do ano), vi um político criando um tópico com o nome, todo em maiúsculo mesmo, "POR SÃO LUIZ E PELO AMOR DE DEUS". Já sabia que viria besteira, e não deu outra. Não havia uma proposta sequer para a cidade, e todos os compromissos eram superficiais. Nada a ver com São Luiz. Esses tópicos foram apagados, mas apareceram vários outros, incluindo tópicos enaltecendo as capacidades do Mercadante (o desespero para o PSDB conseguir o poder nacional é o mesmo do PT para conseguir o poder no Estado).

Infelizmente, muita gente entende a questão de ajudar um político a se eleger como a necessidade de fazer qualquer coisa que venha à cabeça para engrandecê-lo.



Agora sim, depois de um desabafo quilométrico, dá para fazer o pedido arroz com feijão:

Porra, gente, vamos votar direito!?

Espero ter alguma notícia boa depois do dia 3 de outubro.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Fogo

Estamos acostumados (principalmente pessoas da minha geração) a ouvir frases um tanto quanto pesadas com relação ao destino da humanidade e demais seres vivos, incluindo o próprio planeta, como 'o futuro está nas mãos dos jovens', e 'veja a que ponto o mundo chegou'.

Não sei a razão, mas desde a minha adolescência a primeira frase vem à minha cabeça com certa frequência, e eu realmente acabo me sentindo parte de um grupo responsável por tomar alguma atitude decente pelo mundo.

Quanto à segunda frase, ainda me lembro do dia em que estava entrando no condomínio no qual morei em São Paulo até 2006, quando uma moradora reclamava com o porteiro a respeito da situação do mundo: catástrofes, desigualdade, corrupção, violência. Ela citava passagens pertencentes à suas crenças, e acreditava que os eventos negativos que se tornaram corriqueiros eram indícios do fim dos tempos.

Por mais que nunca tenha tido envolvimento com qualquer tipo de grupo que se mobilize para o fim da depredação no mundo - quando era mais novo eu tinha a maior vontade de participar daquelas invasões pacíficas do Greenpeace a navios que caçam baleias; hoje eu sou mais viking, e sou mais a favor da lei de talião com pessoas sem escrúpulos que destroem o planeta por dinheiro ou prazer - eu cresci com um certo idealismo, mesmo sem sair falando para os outros pararem de jogar lixo nas ruas e cousas do gênero.

Sempre tive a consciência de que não vou salvar o mundo (as primeiras coisas que falam quando você ingressa na faculdade de jornalismo: 1. você não vai ficar rico; 2. você não vai salvar o mundo), mas tenho a meta de fazer algo relevante que possa mudar algumas pessoas, e que elas façam o mesmo com mais pessoas, e por aí vai. Não pretendo me tornar um ecochato para aparecer, e sim tentar mobilizar as pessoas para atitudes simples que já ajudem o mundo de alguma maneira.

Sei que há eventos catastróficos que ocorrem no mundo que não necessariamente são causados pelo humano (afinal, a natureza tem seus ciclos, e algumas vezes as mudanças podem causar deformidades no que era comum no ciclo anterior, causando alterações na temperatura, solo, etc), mas a questão vai além das ações da natureza. Aparentemente tudo gira em torno do aquecimento global, e uns jogam a culpa nos outros pelos aumentos graduais da temperatura nos últimos anos, enquanto outros dizem que os atos humanos não interferem tanto nas alterações repentinas que ocorrem no planeta. Mais do que qualquer coisa, as consequências mais discutidas são os impactos que essas alterações trarão às vidas humanas.

Independente de quem está correto, qualquer uma das afirmações quer dizer que o humano interfere na vida dos outros, principalmente na dos que não são humanos. E há pessoas que não veem importância em qualquer uma das constatações, e não só não colaboram com o planeta como conseguem piorar bastante a situação.

Isso acontece em diversos graus: há grandes empresas que, procurando criar boas imagens, dizem que preservam o meio ambiente e tentam contribuir para a inclusão social dos desfavorecidos, enquanto do outro lado permitem vazamentos ou promovem a desigualdade com trabalhos escravos em cantos escondidos do mundo.

No caso desse texto, o exemplo usado não será uma grande empresa, que visa lucros milionários, e sim pessoas quaisqueres, como eu ou quem ler isso.

Hoje, enquanto assistia a um telejornal para realizar as tarefas diárias do trabalho, vi uma matéria aqui da região falando de um incêndio criminoso na rodovia Oswaldo Cruz, que liga Taubaté, no Vale do Paraíba, a Ubatuba, no litoral norte (entre as duas cidades está São Luiz do Paraitinga, onde morei durante três anos).

Muito provavelmente não é criminoso no sentido de que alguém pegou um lança-chamas e incendiou o local para empobrecer um fazendeiro qualquer. Deve ter sido, simplesmente, um imbecil que passava de carro e jogou uma bituca de cigarro no mato seco - não há chuva nessa região há dois meses. O custo dessa queimada estúpida: 400.000 m² (equivalente a mais de 50 campos de futebol, levando em conta um cálculo médio das exigências da Fifa para um campo, 105x70m).

Segundo a reportagem, foram registrados 1.219 focos de incêndio em 2009 nesta região. Faltando quatro meses para o fim de 2010, 1.697 focos já foram registrados nesse ano. Destes, a maioria teria tido início causado pelas típicas ações irresponsáveis, como jogar uma bituca de cigarro no mato ou iniciar um incêndio """""controlado""""", que também é uma atitude babaca, visto que isso empobrece muito o solo, e muitos infelizes fazem isso querendo limpar o espaço para começar a cultivar algo.

O que dá para dizer a essas pessoas? Aliás, muitas delas nem sabem o tremendo prejuízo que causaram à natureza - fauna e flora - e a proprietários dos terrenos queimados, porque só estão de passagem por ali!

Outra notícia de hoje? "Parque (Nacional) das Emas sofre destruição de 90%". O parque, situado no Centro-Oeste, tem 132.000 hectares (usando os mesmos cálculos de antes, isso equivale a quase 180.000 campos de futebol). A destruição de 90% equivale a 118.000 hectares (ISSO EQUIVALE A MAIS DE CENTO E SESSENTA MIL CAMPOS DE FUTEBOL!). O fogo começou em plantios de soja ao redor do parque e se alastrou pelos fortes ventos dos últimos dias.

Para esclarecer um pouco mais (e não deixar a entender que só o equivalente a campos de futebol foi queimado), consultando a Wikipedia encontrei o tópico "Importância do parque". Em resumo, ali era um ponto fundamental para manter características da fauna e flora do Cerrado. Ali tentava-se manter vivo, pelo que contei, 51 espécies da fauna, e 42 da flora. Dentre elas, várias espécies em extinção!

Voltando à matéria do Estadão, dados indicam que a maior parte dos incêndios ocorrem no Cerrado, e que 67% deles começam em áreas privadas, com índios ou fazendeiros imbecis que tentam fazer essa "queimada controlada", e acabam ferrando com tudo. Ou seja: para "cuidarem" de suas terras, eles acabam com centenas de espécies.

Sério, se o mundo estivesse nas mãos da minha geração, eu pediria a liberação do porte de tacos de beisebol para a aplicação de disciplinamentos mais rígidos... no entanto, tem tanta gente da minha idade que ajuda a piorar as coisas que às vezes eu fico é pensando em como o mundo seria mais feliz daqui para frente se todos os humanos sumissem...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Amizade (nostalgia+post gigante)

"Pode acontecer um monte de merda na minha vida, mas se tem algo de que não posso reclamar é dos amigos que tenho."

O Mineiro (amigo de São Luiz do Paraitinga) falou isso nesse final de semana, enquanto íamos de ônibus à Lagoinha, para passar o dia com o Kannu (nós três tocávamos juntos). Fazia cerca de um mês que eu não via o Mineiro, e acho que uns seis meses que não via o Kannu.

Eu os conheci logo que mudei para São Luiz: o Mineiro trabalhava como chapeiro e sempre deixava um violão guardado embaixo do carrinho de lanches, e depois de conhecê-lo comecei a levar o meu violão também para tocarmos juntos. Para socializar mais fácil, aprendi a tocar uma música da qual nem gostava tanto para tocar com ele e com outro amigo nosso. Alguns meses depois conheci o Kannu, que curtia rock tanto quanto eu, mas que também não sabia tocar tanto - igual a mim e ao Mineiro.

Começamos a tocar juntos e a fazer apresentações pela cidade (restaurantes, festival de inverno, etc), e algum tempo depois resolvemos renomear o grupo e tocar músicas próprias (sendo uma delas a que linkei lá em cima).



Nossa primeira apresentação, no festival de inverno, em julho de 2007




Apresentação num restaurante, provavelmente em 2007 também




Apresentação no festival de inverno de 2008, quando tínhamos um baterista e resolvemos fazer uma apresentação mais rock'n'roll (com direito a gritos, pulos, caras de maus, e eu com camisa aberta no frio)




Acústico que eu e Mineiro fizemos em 2008 durante um evento cultural


Tempos depois, o Mineiro foi embora de São Luiz para morar em Taubaté (que não é longe) e trabalhar em outro lugar. O Kannu começou a tocar em um grupo sertanejo - o grupo já tem um cd gravado e se apresenta em várias cidades - e foi morar em Lagoinha (20 km de SLP), onde os outros membros da banda moram. Com a enchente, também fui embora. Estou abrigado em Taubaté até me formar, e mesmo assim não pude voltar a tocar com o Mineiro por aqui devido às divergências em nossos horários.

Nenhum de nós três conversa diariamente, e às vezes ficamos um bom tempo sem contato. Aí resolvemos tirar um fim de semana para fazer um 'back to the good old times' lá em Lagoinha, aproveitando que estava tendo um rodeio por lá.

No momento em que o Mineiro falou a frase que destaquei lá em cima eu estava segurando o choro. Depois, quando encontramos o Kannu em sua casa, pegamos violões e baixo e começamos a improvisar as músicas. Começamos com 'Born to be wild', mas depois foi a vez de tocar 'Cartas de baralho'. Quando a música terminou, os três estavam com cara de bunda, e começamos a falar da nossa amizade depois de o Kannu ter dito 'já já eu vou chorar se continuar assim'. Até escrevendo essa parte eu quase chorei.

Tem MUITA gente que passa por nossas vidas, com quem temos contato diariamente, e que por mais que haja conversa, troca de ideias, balada, não é criado um vínculo afetivo assim. Esse é o tipo de pessoa de quem você vai lembrar por um tempo, ter saudade de um momento ou outro, e só.

Os outros, de quem você sempre lembra, e eventualmente fica desanimado pela falta que o contato faz, são aqueles que te dão orgulho quando você diz que são 'irmãos'. São aqueles idiotas que marcam algum programa, e que no final das contas só ficaram bebendo juntos num bar qualquer ou ficaram jogando no computador até o amanhecer enquanto falavam de problemas amorosos e de garotas que mexiam conosco. Essa é a parte mais triste de você ver na marra os ciclos da vida de cada um passando, pois é comum que a linha traçada por cada um separe esse grupo e leve cada pessoa a lugares distintos.

Até hoje, por exemplo, dói ao lembrar de quando fui embora de São Paulo. Passei os meus últimos dias lá com os meus amigos, e nunca vou esquecer da última despedida que tive na noite anterior à minha partida. Estava dentro do elevador com o Renan (que passava o dia no meu apartamento, e eventualmente traçava minhas marmitex), e quando chegamos ao andar no qual ele morava, depois de 20 segundos de silêncio, desabamos no choro, parecendo duas criancinhas. Aí a boadrasta dele, que estava com a porta de casa aberta, veio me abraçar também... devia estar achando que éramos malucos. Acho que essa foi a despedida mais triste que já tive.

Tenho outros grandes amigos de lá também, daqueles que ignoram a técnica do 'abraço de homem' (típico de homem que gosta de abraçar quem não é tão amigo, mas que para não se sentir maricas evita mais de um segundo de contato e cousas do gênero). É abraço forte, com tapas, enquanto um xinga o outro dos mais variados e pesados palavrões possíveis.



Renan e eu... isso deve ser em 2004 ou 2005




Johan, Tico, Marcel, Felipe, Renan, e eu capotando




Marcel, eu, Leon, Johan e Tico, quando eu já não morava mais em São Paulo - virei a noite com eles na capital pra viajar de manhã pra Prainha Branca (noite memorável)




Meu primeiro carnaval em São Luiz do Paraitinga, em 2007, com direito a visita do Marcel e Johan


Agora, depois de tantas fotos e legendas nostálgicas, vem o outro lado da coisa: se eu não tivesse ido embora de São Paulo, eu não teria conhecido o Mineiro e o Kannu, e ninguém da faculdade em que estudo, e por aí vai. É aí que tá a graça da coisa! Em algum momento devemos partir do local em que estamos, mas ao invés de lamentos e mais lamentos pela distância dessas pessoas queridas, devemos nos contentar por termos ensinado algo a elas e vice-versa no tempo em que estávamos próximos, e por sabermos que poderemos ensinar outras coisas a novas pessoas, e com elas aprendermos algo diferente.

Cada ciclo de nossa vida tem um momento certo para começar e terminar, e a cada mudança devemos ter o coração e a mente abertos para recebermos novas pessoas, e, consequentemente, novos aprendizados.

Então, à quem parte de algum lugar, aproveite os novos lugares e as novas pessoas que conhecerá: a saudade de pessoas vivas não deve ser tão dolorosa, pois, por mais longe que estejam, as pessoas terão uma chance de encontro em algum momento. Na verdade, acho que nem a saudade de pessoas mortas deve ser tão dolorosa. As lembranças aparecem, e com elas o choro, mas acho que o que prevalesce são os momentos que as pessoas tiveram juntos. Tem lugares do mundo onde as pessoas até festejam a morte de alguém! Acho que, na atual conjuntura, não é difícil uma pessoa morta ir a um lugar melhor que o mundo de hoje...

PS: apesar da "proximidade" trazida pela internet, é sacal ficar horas conversando virtualmente com quem você costumava encontrar diariamente. Na maioria das vezes eu prefiro conversar vez ou outra com as pessoas, saber que elas estão vivas e inteiras, e deixar crescer a saudade costumeira de quem vivia décadas antes de inventarem a internet. Prefiro assim, ainda mais quando as pessoas que estão distantes não estão TÃO distantes, e posso encontrá-las a qualquer hora (fórmula do 'qualquer hora': tempo livre + dinheiro - faculdade - trabalho de conclusão de curso - estágio = qualquer hora).

PS2: apesar de fazer menção apenas aos amigos aqui, tudo o que falei aqui é aplicável à minha família, principalmente no quesito saudade, visto que dificilmente consigo vê-la. No caso mamãe+gatos(igualmente da família)+eu, a situação é mais agravante, pois passamos vários anos juntos, acostumados a estarmos juntos, e nos afastamos involuntariamente (enchente fdp).

PS3: eu sou péssimo em demonstrar meus sentimentos pessoalmente, acredito que pela infância anti-social que tive, mas uma hora eu ia ter que falar essas coisas, nem que fosse pela internet.

PS4: acho que já dá pra renomear esse post como 'Bíblia 2: o império contra-ataca'

terça-feira, 6 de julho de 2010

A bola rola, o mundo pára

Vou reproduzir aqui um pequeno artigo que escrevi para o Comunicando, o informativo da paróquia da turma que está me abrigando, dirigido pelo meu amigo Jaime. A edição saiu há algum tempo, mas só agora lembrei de passar o texto para cá. É um assunto passível de outras discussões, mas que por ora não aprofundarei. O título do texto é o mesmo do título da postagem.

'Mais uma vez o mundo está parando para ver uma copa do mundo de futebol, o maior evento esportivo que existe. No Brasil, o gosto pelo esporte leva muitos a fazerem contagens regressivas para o início do evento e comprarem parafernálias em verde e amarelo. Tudo para desfrutar de alguma maneira desse evento, que a cada edição apresenta diversos aperfeiçoamentos tecnólogicos, como apresentações em alta definição ou três dimensões, destaques dessa edição do evento.

Essa é a parte acessível a poucos, mas que sempre é destacada. Como se sabe, o Brasil praticamente congela nessa época. As mídias se resumem aos jogos, e os serviços na maioria dos lugares se tornam precários - há empresas que chegam a dispensar os funcionários em dias de jogos da seleção! Ou seja: enquanto a seleção jogar (e não apenas a nossa), muitos brasileiros deixarão seus deveres de lado.

E assim, mais uma vez, os problemas do país ficarão num segundo plano. E isso porque a copa ainda não acontecerá aqui. Mas e como será em 2014, quando a copa for realizada no Brasil? É lamentável ver que, anos antes, a prioridade do país seja injetar bilhões na adaptação de estádios e municípios para receberem o evento. A princípio a estimativa de custo para isso era R$ 714 milhões, mas agora se prevê R$ 17,5 bilhões.

Enquanto isso saúde, educação, e tantos outros setores precisam desse tipo de investimentos. Mesmo assim, os maiores e mais rápidos são na tentativa de fazer o país brilhar aos olhos do resto do mundo, e não de atender as nossas necessidades. Tem alguma coisa errada aí.'

terça-feira, 1 de junho de 2010

São Luiz e suas cores

Não podendo relatar detalhadamente, contarei um pouco do que vi na festa do Divino Espírito Santo em São Luiz do Paraitinga. A festa foi maravilhosa. Provavelmente contou com provas de fé muito maiores do que nos outros anos. As novenas foram realizadas na praça central, em um espaço provisório montado pela prefeitura, com um grande toldo, para eventos.

Todas as cadeiras do espaço, que não correspondiam ao número de assentos da igreja matriz, ficavam facilmente ocupadas. Ao redor do espaço, algumas pessoas sentadas nos bancos da praça próximos do local da novena, e dezenas de pessoas em pé com suas bandeiras em mãos sem demonstrar sacrifício algum por não terem aonde sentar durante cerca de uma hora de orações e reflexões.

Achei bem legal o fato de padres jovens terem participado das novenas. A presença de um padre recém-ordenado naquele espaço, naquele momento, deve ter representado um grande sinal de esperança a todos. Depois de tudo o que ocorreu, acho importante ter aquele símbolo jovem simbolizando a possibilidade de reconstruir o que por algum tempo se dera como perdido.

No primeiro dia, houve a tradicional ida ao Império após a novena. A decoração desse ano, sob responsabilidade do Paulinho do Correio, como é conhecido, envolveu o uso de garrafas PET nas luminárias do local. O ambiente era apertado, como de costume, mas estava lindo. A diferença, nesse ano, foi a presença de uma grande imagem da igreja matriz da cidade ali.

A distribuição do afogado - que nesse evento é feita com uma mistura de alimentos, como arroz, macarrão, carne e batata -, dessa vez, foi no mercado municipal. A enchente acabou fazendo a festa recorrer ao costume antigo de tornar o mercadão palco de parte da festividade.

Fotografando a preparação do local para o primeiro dia da distribuição do afogado conheci um italiano gente fina, chamado Lucca. Ele mora em São Paulo atualmente com a esposa, e foi à cidade fotografar o evento como voluntário de um projeto que será realizado na cidade, abordando também a reconstrução. Falei do assunto do meu TCC, e que era voluntário do Jornal da Reconstrução - foi engraçado ver ele abrindo a pochete e tirando de lá a última edição do jornal, perguntando se era naquele jornal que eu trabalhava. Ele pediu uma eventual ajuda na produção do material no qual ele também estava trabalhando.

No dia seguinte ocorreu o encontro das bandeiras. O encontro foi realizado em frente à Santa Casa e à câmara municipal, e poucos minutos depois estavam todos indo ao centro da cidade acompanhados pela banda municipal.

Na semana seguinte fui a cidade na sexta-feira cedo, como de costume, fazer as apurações para o jornal. Como havia um tempo vago, eu e um colega de trabalho visitamos as ruínas da igreja matriz. Fomos acompanhados por uma simpática estagiária da Unesp, que explicou como o serviço estava sendo realizado. Ela disse que a previsão da empresa responsável pelos cuidados no local é de que o espaço esteja limpo em agosto/setembro.

Não sei se é permitido ficar postando imagens do que já foi encontrado por lá (há várias prateleiras com achados - inteiros ou em partes), mas ao menos uma, num espaço próximo a uma das portas de entrada do local, eu vou colocar. Não dá para ver muita coisa, e há muuuito a se fazer por ali ainda. Grande parte dos destroços ainda não foram tocados.

Pouco depois do almoço e uma rápida conversa com professores vindos de fora com uma turma de jovens estudantes, fui à rua vê-los descendo com os bonecões João Paulino e Maria Angu caminhando e fazendo barulho até o mercado municipal.

A proposta daquela escola é fantástica. As crianças foram conhecer a cidade, mas não ficaram apenas ouvindo a história da cidade e de suas festas. Além de participarem animadamente da saída dos bonecões até o mercadão, ao som de um bumbo somado a várias vozes que anunciavam a passagem dos bonecões, as crianças tiveram a oportunidade de produzir o material comumente usado tempos atrás para a edificação das casas: a taipa. Eu me assustei ao ouvir isso, pois NUNCA vi uma escola propor esse tipo de atividade. É admirável ver uma escola dando tanto valor à cultura na hora de educar as crianças.

Já no final da tarde, fiz minhas costumeiras caminhadas por trechos não tão frequentados, e notei que já estava bem mais fácil passar pelo trecho que liga a rodoviária ao centro histórico. Há bem menos terra, e há um caminho nivelado pelo qual pessoas podem facilmente fazer a travessia.

Vi essa senhora passando pelo local, e a acompanhei silenciosamente por um tempo tirando algumas fotos. Depois de algumas fotos, acelerei o passo, e enquanto passava lentamente por ela, ela começou a falar. Eu senti tanta amargura em sua voz, tão fraca, que não sabia se ela começaria a chorar, mas percebi que por dentro ela estava machucada. Durante nossa caminhada no trecho de terra, ela foi explicando que perdeu tudo, e que não sabia bem o que fazer. Só de lembrar desse momento eu quase chorei aqui. Ela contou que agora havia dificuldade em andar pelo centro, pois estava morando no bairro Santa Terezinha (fica num trecho BEM alto e afastado, principalmente para uma senhorinha), e que era estranho andar pela cidade sentindo falta de tanta coisa.

Como de praxe, falei que também fui atingido pela enchente, e mesmo sabendo que o que ela sentiu e sente é, com certeza, muito além do que eu posso entender (é o que falei no texto Memórias, pois ela se habituou a ver certas coisas por décadas, então a perda foi muito mais que da parte material), acredito que explicar isso poderia deixá-la um pouco mais confortável. Talvez ela tenha pensado que pelo menos um pouco do que ela está passando esteja acontecendo comigo também, e que eu a entenderia.

No sábado, infelizmente, não pude ir à festa, e perdi a famosa cavalhada de Catuçaba, que todo ano se apresenta no evento encenando um conflito entre mouros (muçulmano/sarraceno) e cristãos na Idade Média.

No domingo cheguei no início da tarde e acompanhei apresentações de diversos grupos pela cidade. Havia congada, moçambique, e danças para todos os lados, além do tradicional pau-de-sebo chacoalhando para lá e para cá enquanto vários rapazes tentavam subi-lo para alcançar o dinheiro amarrado no seu topo.

Vi também o grupo Manjarra, que faz diversas encenações divertidas durante a festa do Divino. Sempre gostei de fotografá-los pela espontaneidade de suas ações, e pelo modo como o gosto pelo que fazem e as cores que eles portam deixam o cenário mais bonito. Por isso, deixarei aqui uma foto que tirei sentado durante uma encenação deles. As cores nela chamaram a atenção de muita gente, e por isso me senti um grande felizardo fazendo essa captura. Além da beleza, ela tem uma mensagem fundamental: São Luiz voltou a ser colorida.


quinta-feira, 20 de maio de 2010

Um pouco de jornalismo

A princípio, o título desse post era "Títulos e manchetes", para falar um pouco de algumas coisas que vi recentemente, mas percebi que acabei falando um monte de coisa a mais. Por isso, "Um pouco de jornalismo" (meio aleatório) para vocês.

A maneira de abordar determinados assuntos no jornalismo sempre foi uma questão pautada pelas empresas, pelos jornalistas, e pelos estudantes, que às vezes também já se incluem na gama de jornalistas.

Nós sabemos que, em cinquenta e poucos caracteres (na internet não há tanto essa preocupação de limite de caracteres, visto que o espaço é infinito), devemos elaborar um título atrativo.

Se o leitor tiver interesse em ler, seja pelo assunto ou pela atratividade gerada pelo título, ele vai para o primeiro parágrafo da matéria, que geralmente é aquela fórmula manjada do jornalismo: o LEAD (ou lide, aportuguesadamente). Nele consta todas as informações básicas da matéria - as seis perguntas bááásicas, que são Quem, o Quê, Quando, Onde, Como e Por Quê (salvas exceções nas quais uma ou mais dessas perguntas não são tão relevantes).

Se depois de o leitor tiver se atraído pela chamada e pelo lead, ele prosseguirá a leitura. Depois do lead, poderá haver o sub-lead, e por aí vai. Às vezes as matérias podem ser montadas de outra maneira (às vezes os próprios leads podem ser algo menos diretos do que 'O padeiro João vendeu cinquenta pães hoje em sua padaria devido à grande circulação de turistas tailandeses'). Eu, particularmente, me interesso muito mais em escrever reportagens, com aberturas não tão secas, etc.

Pelo que me recordo (não, eu não estava vivo nessa época, mas foi o que me lembro de ter lido), o lead foi criado durante a Segunda Guerra Mundial, época em que havia dificuldades impostas (pela falta de tecnologia, sem falar em bombas caindo por todos os lugares e gente se metralhando pra lá e pra cá) nos campos de guerra, e os soldados responsáveis pelas reportagens (da situação do local) deviam ser breves nos relatos. Daí, tinham que responder especificamente as seis questões. Posteriormente, como vi no novo seriado Band of Brothers, os líderes dos grupos relatavam mais detalhadamente a história de um confronto.

Atualmente, o uso do lead, mas o lead básico do básico mesmo, que fala de uma cueca mas nem especifica a sua cor, é muuuito usado. Os jornais impressos continuam usando-o muito, em uma época na qual eles perderam muito espaço. Para que esperar ler amanhã no jornal com matérias de hoje algo que só contenha as informações mais básicas? Antes da metade do século XX, o rádio, mesmo com toda aquela aparelhagem pesada e complicada, estava saindo à frente do jornalismo na instantaneidade. Posteriormente, a televisão acabou mais ainda com a instantaneidade, e ainda oferecia imagens em movimento. Atualmente, a internet enterrou de vez esse jornalismo básico. Ela é a única que pode relatar, a qualquer hora do dia (pois não depende de uma grade de programação), determinado fato. Sendo assim, todos nós sabemos que o jornal impresso só vai se salvar se começar a investir em textos mais aprofundados, que contenham algo que o rádio, a televisão e a internet ainda não tenham relatado.

Mas enfim, história do jornalismo à parte, o que me fez querer escrever a respeito do jornalismo foi ter visto, em um dia, um título de matéria estranho em um veículo online e duas chamadas em um jornal pequeno da região.

O título estranho que vi é de uma matéria anunciando a festa do Divino Espírito Santo, em São Luiz do Paraitinga. Encontrei o mesmo texto em mais de um lugar (das duas uma: ou o texto é um release, cujo título foi alterado, ou um veículo copiou outro), e em um desses lugares o título é "São Luiz do Paraitinga realiza Festa do Divino para resgatar turistas".

Sabemos que a cidade passou por maus, péssimos bocados, mas há de se tomar cuidado com o que diz. O título, o chamariz primário da matéria, diz que a cidade realizará a festa PARA RESGATAR turistas. Ou seja: por esse título, podemos entender que, se não fosse a importância de se trazer turistas, não haveria festa.

É claro que cidades promovem eventos buscando arrecadar turistas e fundos, mas há outras que são tradicionais, e que independem da presença do turista. A Festa do Divino lá de São Luiz é uma dessas. É a festa mais tradicional da cidade (não é a que atrai mais gente, perdendo apenas para o carnaval - mas, em contrapartida, os turistas do Divino consomem e não sujam tanto a cidade quanto os do carnaval).

Vou falar mais dessa festa em outro post, quando a festa terminar, mas posso adiantar que ela, para os devotos não-comerciantes, não depende de turistas. Diversos eventos acontecem ao mesmo tempo, gerando até reclamações de turistas que falam da "desorganização". Essa "desorganização" é a demonstração de fé de cada um desses grupos. Eles estão lá para fazerem suas manifestações de uma maneira bonita, mas sem se importar em ficar chamando a atenção apenas para eles.

Ou seja: o título distorceu totalmente o foco da festa. Felizmente o texto não seguia esse enfoque.

A outra situação é de um pequeno jornal regional que vi lá no meu estágio, cuja capa havia duas manchetes falando de suicídios. Fala-se tanto que os veículos evitam abordar questões de suicídio, pelo risco de poder influenciar negativamente o público (que tocante os veículos midiáticos - ou uma parte dela - se importando com as pessoas), e nesse pequeno jornal duas das manchetes tratam disso.

Tudo bem, talvez pela simplicidade desse jornal ele não seja capaz de mobilizar as pessoas, e, felizmente, não afetar pessoas com tendências suicidas, mas de qualquer maneira podia ser um tema evitado (se você pensar que o jornal é pequeno, e que duas das manchetes tratavam disso, entende-se que uma parte significante do jornal falava de suicídio).

Aí eu me pergunto a razão de o jornal publicar isso. Falta de assunto? De ética? Às vezes eles até tiveram um bom motivo pra isso. Às vezes não. Podem ter feito propositalmente, querendo chamar a atenção mesmo correndo o risco de serem sensacionalistas, ou até pra dizerem que deram um furo de reportagem, pelo fato de os outros veículos não publicarem isso. É claro que esse argumento seria ridículo, então duvido um pouco que seja isso. E, no final das contas, podem ter feito sem pensar em tudo isso, na maior ingenuidade que um jornalista não deve ter quando publica algo sabendo que o seu texto pode ir looonge e afetar várias pessoas.

Por isso ouvimos tanto os professores (sejam os do espaço universitário ou profissional) falarem para termos cuidado com o que dizemos. Um dia, algo que publicamos pode afetar negativamente uma pessoa, e nós poderemos nem ficar sabendo disso. É por isso que os meios de comunicação são poderosas armas. E não é à toa que chamam a imprensa de Quarto Poder.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Óia o jornal

Só atualizei o último post incluindo a quinta edição do jornal.

Ano I - nº 1 - 1ª Quinzena de março

Ano I - nº 2 - 2ª Quinzena de março

Ano I - nº 3 - 1ª Quinzena de abril

Ano I - nº 4 - 2ª Quinzena de abril

Ano I - nº 5 - 1ª Quinzena de maio

Fiquei feliz esses dias ao saber que o texto falando do meu avô foi publicado em um jornal da cidade em que ele vivia, Laranjal Paulista, onde meu pai e meus dois irmãos vivem atualmente.

Com relação ao Jornal da Reconstrução, me empolguei quando disseram que as publicações serão distribuídas em alguns dos maiores veículos do país. Isso pode não garantir um emprego, mas me contento de saber que estamos mostrando ao país que a cidade está se reerguendo. Espero que as outras cidades que têm passado por maus bocados também estejam recebendo a devida atenção.

E é só... só queria disponibilizar os links para o JR online, e agradecer a quem se interessar, ler e divulgar o material.

domingo, 25 de abril de 2010

Memórias

Queria entender o que acontece quando você está habituado a ver algo e, depois de tanto tempo, esse algo some. Acho que esse post é mais reflexivo do que os outros, e nada conclusivo.

Hoje fui para São Luiz cedinho fazer algumas entrevistas que faltavam para escrever uma matéria, e, como sempre saio atrasado de casa, só tomei café da manhã 3 horas depois de acordar (café saudável, por sinal: coca e coxinha).

Enquanto comia, uma senhora entrou na padaria, provavelmente olhou um cartaz com imagens da cidade, e falou "Saudades da minha igrejinha (se referindo à Igreja Matriz)... fui na missa do padre ontem (se não me engano foi a ordenação de um padre), e quando o sino badalou, até chorei".

Anotei a frase no celular para reproduzir aqui. Fiquei pensando no que passa pela cabeça daquela senhora e de tantos outros senhores que nasceram perto da Igreja Matriz, foram batizados nela, cresceram dando voltas na praça à sua frente, se casaram ali, e, tantas décadas depois, veem tapumes enormes, ruínas quase ordenadas após alguns meses de arrumação, e o sino, sobrevivente da tragédia, que já voltou a ser utilizado para convocar as pessoas para os atos religosos.

Em Taubaté, por exemplo, o prédio da CTI (Companhia Taubaté Industrial), ficou algum tempo sem tocar seu sino tradicional de décadas. Ele tocava no horário do almoço dos trabalhadores e em outros horários, como o de entrada e saída dos funcionários se não me engano.

Uma matéria na tevê mostrou senhores de idade que vivem perto do prédio, falando da falta que o sino fazia. Diziam ficar perdidos com a ausência do som que indicava o horário do almoço, dentre outras coisas.

Em São Luiz não é diferente. As pessoas sentiam falta de ouvir o sino badalando, e infelizmente sentirão falta de lugares históricos como a Igreja Matriz e a Capela das Mercês por um bom tempo, até que eles sejam reconstruídos (apesar de que, mesmo com a reconstrução dos locais, o sentimento de vê-los poderá ser diferente).

Conversando com uma amiga na internet nessa madrugada, falei de como tenho saudades de ver minha mãe e os meus gatos diariamente, algo a que me habituei há anos. A resposta dela foi interessante: "Não tenha saudades, você os tem."

Às vezes eu mesmo penso nisso, ainda mais pensando que os meus gatos não eram prioridade nos resgates da tragédia no começo do ano. Até parece que os bombeiros se dariam o trabalho de ficar pegando os gatos. E mesmo assim minha mãe deu um jeito de levar três deles a um lugar seguro, e os outros dois sobreviveram em casa mesmo, sendo que esses dois são a Mia, que tem quase 20 anos - é uma senhorinha -, e o Faraó, que é o mais lerdinho para pensar. Família ninja é outra coisa.

De qualquer maneira, a frase dita a mim, curta e direta, me ajudou mais a ver o lado bom da coisa. Se não, eu nem teria lembrado dela.

É claro que não é a mesma coisa o meu relacionamento com minha mãe e meus gatos, e as pessoas com os casarões e igrejas da cidade, nem pelo sentimento, pois o meu atualmente é de distância, e o delas é de perda.

Como vivi 18 anos em São Paulo, sendo 10 deles em um condomínio, meu maior apego patrimonial foi com o local em que vivi. Quando passo por lá, dá aquele sentimento de volta no tempo. Mas o condomínio ainda está lá.

Então por mais que eu já tenha tido minhas experiências, elas não se comparam ao que os luizenses, principalmente os de idade, sentem com essa perda. É algo que, naturalmente, nem eles conseguem explicar tão fielmente, por mais que se empenhem em demonstrar o tamanho da perda.

Me bateu essa curiosidade danada hoje... só queria entender o que acontece quando você está habituado a ver algo e, depois de tanto tempo, esse algo some...

segunda-feira, 29 de março de 2010

Resumo do diário de bordo

Várias semanas que não posto devido à correria da vida. Como minha intenção não é fazer necessariamente um diário, a correria não necessariamente fará o número de postagens crescer. Mas cabe colocar um resumo do que tem acontecido comigo.

O jornal da Reconstrução, de São Luiz, já foi lançado. A segunda edição saiu nesse final de semana, e a população finalmente tem a oportunidade de se informar mais sobre o que se passa na cidade. O jornal também está sendo disponibilizado na internet, no site do departamento em que estudo, de modo que todos tenham acesso a ele.

É só clicar aqui para ver a segunda edição (quando eu descobrir aonde foi parar a primeira, prometo postar aqui).

Com relação ao trabalho de conclusão de curso, estou preparando as pautas para entrevistar diversas fontes. De abril não passa, começo a escrever os primeiros capítulos do livro e a entrar em contato com fotógrafos pedindo permissão para usar suas imagens da cidade. Já consegui um número razoável de fontes, dentre moradores, pessoas públicas, gente responsável pela reconstrução de algo, etc.

Com relação à música, me apresentei duas vezes nas últimas semanas em um restaurante. Curioso mesmo foi tocar em uma missa, à convite do Jaime, há algumas semanas. Não é um sinal de mudança religiosa nem nada, mas possivelmente tocarei em outras missas / eventos religiosos. Na semana passada toquei uma música enquanto o Jaime fazia uma homenagem à uma professora da faculdade, que faleceu há alguns dias. Eu conheci a música no dia anterior, havia diversas notas estranhas que eu nunca havia feito, e errei bastante nos dois períodos de aula pelo nervosismo de não ter a segurança de conhecer tão bem a música. De qualquer modo, acho que o que importa é a homenagem.

Passadas longas semanas, darei um jeito de visitar minha mãe nesse ou no próximo final de semana... morro de saudades dela e dos meus gatos, que passavam o dia conversando comigo. Inclusive, sonhei com a Ciça, uma gata minha que morreu pouco antes de eu ir embora de São Paulo. Não sei se isso significa algo, mas minutos depois eu acordei com meus irmãos me ligando, para me avisarem que o meu avô faleceu hoje cedo.

Foi um dia estranho, mais reflexivo do que de costume, e apesar de querer priorizar a postagem sobre meu avô, fica mais coerente deixá-la depois desse meu resumo de vida.

Ê, seu Zé...

Meu avô, José Corrêa, mais conhecido pelas pessoas como 'Zé Corrêa', já fez um monte de coisas em Laranjal Paulista, onde meu pai e meus irmãos moram. Dentre elas, já foi prefeito e vereador.

Sempre foi uma pessoa rígida, daquelas que deixam o filho de castigo de frente para a televisão desligada quando tirava notas ruins. Não era de convivência fácil, ainda mais quando algo fugia do que estava acostumado a ver. Ele nunca foi chegado nos meus antigos brincos, nem nos meus piercings. Nem nos brincos e piercings do meu irmão Rafael (Fá), e muito menos na tatuagem dele.

Meu contato com ele se resumia a uma ou outra visita nas poucas vezes em que eu podia ir à Laranjal. Geralmente essas visitas coincidiam com o seu aniversário, natal, etc.

Ele sempre perguntava como estava a vida do neto que vivia longe. Dos netos que viviam perto ele sabia. Sempre disse acreditar que o neto jornalista pode e deve mudar as coisas, exercendo o seu papel social.

Independente de quem estava em sua residência durante as visitas, as conversas invariavelmente acabavam em política. Não importava se estava eu, que não entendo tanto de política, com ou sem meu pai e minha boadrasta, políticos da cidade, meu irmão mais novo Victor (Tito), que tende a ser o político dessa geração da família, e o Fá. A política laranjalense sempre acabava em pauta, e às vezes a política nacional, principalmente quando a televisão estava sintonizada em algum canal do tipo TV Senado.

Mais invariavelmente ainda, Seu Zé falava de sua atuação política no município. E não era para menos. Talvez por entender tanto de política, misturado à sua rigidez, ele foi asseguradamente o maior prefeito da cidade. Para se ter noção, ele conseguiu levar a Ajinomoto para a cidade há cerca de 30 anos. Atualmente a cidade tem aproximadamente apenas 27 mil habitantes, e suponho que décadas atrás ela fosse um pouco menor. Para se levar uma indústria do porte da Ajinomoto, não pode ser qualquer político.

Ele era casado com a dona Alice, a avó que chamava o refrigerante Kuat de 'Kuait'. Eles viviam juntos num grande sítio com cachoeira, porém após o falecimento da minha avó o sítio foi vendido. Seu Zé dependia dela, e não conseguiria viver sozinho no sítio, inclusive pelo fato de, após tantos anos casados, vir o sentimento de solidão.

Eu ainda era adolescente quando a vó Alice partiu, e me sentia estranho ao visitar o vô Corrêa em uma casa no centro da cidade, sem ver a vó, e vê-lo não tão sorridente, principalmente quando falava dela.

Ele era uma pessoa difícil de lidar, principalmente com o passar dos anos, levando a família a ficar um pouco afastada dele. Com o tempo, os problemas de saúde foram se agravando. Mesmo com tentativas de aproximação, principalmente para ajudá-lo, havia dificuldade em ficar muito próximo dele.

Nos últimos anos, começaram a vir internações pelos problemas de saúde. No ano passado o visitei com o meu pai e minha boadrasta durante uma internação na Santa Casa. Me senti mal por vê-lo na cama, fraco.

Pouco tempo depois ele voltara para casa um pouco melhor. Aliás, já percebi que nós Corrêas temos sangue ruim, do tipo 'vaso ruim não quebra' mesmo, ainda mais vendo a lucidez que o vô Corrêa teve até os 94 anos, e o vigor que o meu pai tem até hoje.

Quando eu e meus irmãos éramos crianças, reclamávamos demais da rigidez do meu avô, que, consequentemente, levou o meu pai a ser rígido também. Anos depois, os três jovens adultos, independente das situações passadas, reconhecemos que a criação rígida nos ensinou bastante. Certas vezes ela é necessária em variados graus, e não só com os outros, mas muitas vezes com nós mesmos.

De qualquer maneira, fico muito grato de saber que o Seu Zé viveu bem sua vida. Seus 94 anos representam cerca de 20 anos a mais do que a média da expectativa de vida de um brasileiro, e com certeza foi uma vida bem aproveitada, falando em nome de sua vida pessoal e política. Tenho a certeza de que a população de Laranjal Paulista sempre será grata pelo que meu avô fez pela cidade que amava.

Apesar de ter tentado levar o dia normalmente, foi um dia estranho. Minha distração era tamanha que, após o almoço, o prato escapou de minhas mãos durante a lavagem e quebrou. Felizmente o machucado foi insignificante.

No final de 2009 conversei com meu pai, que me sugeriu escrever uma biografia do Seu Zé. Infelizmente não houve tempo para entrevistá-lo, mas espero que haja algo significativo em sua memória, proporcionalmente ao homem que ele foi. Espero que eu mesmo possa fazer algo por ele, mas se por ventura isso não for possível, que alguém o faça.

Bem, não sei se homenagens ou agradecimentos póstumos chegam à pessoa de alguma maneira, então espero que ele saiba da importância que teve para sua família.

E se por acaso você der um jeito de ler isso, obrigado por tudo, vô Corrêa, em nome de sua família.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Simplicidade

Semanas corridas, pouco tempo para respirar, e muitas experiências boas. Desde que o trabalho no jornal de São Luiz do Paraitinga começou, meus finais de semana foram reduzidos. Meu descanso pode começar apenas no meio de sábado, ou até mesmo no domingo apenas.

Como todo estudante deve pensar, é empolgante começar a exercer a função para a qual você estuda. Não era como no primeiro ano, em que você chegava nas pessoas dizendo "Oi, eu sou estudante do primeiro ano de jornalismo da Unitau, e vou fazer matéria sobre blablabla whiskas sachê. Será que você pode responder algumas perguntas?".

A parte de ser estudante de jornalismo é mantida, mas a nova frase faz você se sentir um jornalista de verdade, principalmente por trabalhar no único jornal cujo objetivo é tratar apenas de assuntos relacionados ao município. Você começa a fazer contatos, as pessoas envolvidas com o poder público lembram de você, e por aí vai (apesar de que tive a felicidade de ouvir uma mulher da prefeitura dizer que se lembra de uma entrevista que fiz com ela no meio do ano passado, mesmo que fosse apenas um trabalho).

Mas tem as pessoas que não ligam direito para quem você é. Nas duas semanas de jornal trabalhei também com matérias relacionadas à zona rural e aos moradores da mesma. Na primeira semana de trabalho, cheguei às 7:30 da manhã de sábado em São Luiz para andar pela zona rural do município. O enfoque era a situação das residências e estradas atualmente (levando em conta que alguns lugares foram prejudicados por três enchentes, por exemplo, e que continuam sendo incomodados pela chuva).

Ainda no centro, encontrei o editor-chefe Luiz Egypto acidentalmente. Ele me levou até a zona rural do município, para que eu começasse a observar as estradas, e entrevistasse os moradores. Durante alguns minutos andei encontrando poucas casas, sempre fechadas. Minha intenção era encontrar alguém asseguradamente acordado nas residências, evitando incomodar as pessoas acordando-as acidentalmente.

Cerca de 20 minutos de caminhada depois, cheguei a um local com algumas seis casas. Numa delas havia um rapaz lavando o quintal, e uma senhorinha andando pra lá e pra cá na casa. Não vou entrar muito em detalhes com certas partes, pois pretendo postar a reportagem aqui no final de semana.

Pedi à senhora, chamada Maria de Lourdes, que me concedesse uma rápida entrevista. Ela estava limpando a residência e colocando móveis novos, e perguntou se eu seria rápido. Ouch. Falei que levaria apenas cinco minutos.

A conversa durou pelo menos meia hora. Na hora de ir embora, ela insistiu para que eu tomasse café ali.

Durante a entrevista fiz perguntas básicas, nada excepcional. Mas o trabalho tem um quê a mais, que faz falta a muitos luizenses. Eles sabem que nós estaremos no município o tempo todo. Não é apenas uma entrevista para uma mídia maior, que resultará em um minuto de reportagem, e fim.

De entrevista, passou à conversa. Eu perguntava, ela respondia, e conversávamos sobre cada ponto abordado. Ela passou a fazer questão de detalhar tudo. Me mostrou sua residência, e o seu quintal, que não possui cerca de madeira em um grande trecho, e sim, como cerca natural, o rio Paraíba. Sua residência fica ao lado do rio. Deve ser difícil viver ali agora.

Foi engraçado sentir como, no início, quando não tínhamos vínculo algum, ela perguntou se a entrevista demoraria, e depois, quando ela soube que eu passei pelo mesmo, se sentiu à vontade para falar.

Aliás, eu havia dito que não seria útil dizer aos entrevistados 'eu também perdi tudo o que tinha em casa, e sei o que você está sentindo'. Na verdade, ainda não acho útil parte da frase, seria ridículo dizer que sei o que cada um sente, mas percebi que dizer que fui afetado gera uma certa familiaridade entre eu e o entrevistado. Se der para evitar, eu o faço.

No entanto, notei que as pessoas veem uma grande necessidade de detalhar o ocorrido e se perdem justamente quando o repórter não sentiu o que aconteceu. Sempre me dizem "se você morasse aqui ia ver a situação da cidade e das casas". Minha resposta, obviamente, é que eu morava ali. O entrevistado se surpreende, pergunta em que bairro eu morava, vê que eu sei bem o que aconteceu no município, e passa a responder as perguntas de outra maneira.

Ou seja: é quase uma conversa de amigos. Não importa se eu sou repórter, estudante, astronauta ou um lunático que chega na cidade às 7:30 para entrevistar as pessoas.

Ao me despedir, Maria insistiu para que eu tomasse café com ela, seu marido, e os rapazes que estavam ali ajudando-a. Disse que não podia ficar, e ela fez questão de ligar para uma vizinha com uma história curiosa, pedindo que ela me concedesse uma entrevista. Cinco minutos depois eu estava sendo acolhido em outra residência, dessa vez uma chácara.

O casal, dono da chácara, não foi diretamente afetado pela enchente. A água subiu por toda a trilha de acesso à residência, mas não chegou ao quintal. Infelizmente, as residências dos filhos foram atingidas. Nem por isso eles deixaram de ser solidários com os outros. No total, eles abrigaram 56 pessoas na chácara, tendo algumas pessoas ficado no local por mais de duas semanas.

Também me ofecereram café, mas não aceitei, até porque tinha recebido uma ligação e precisei me apressar um pouco. Comecei a caminhar de volta para o centro. Levaria, no mínimo, meia hora a pé.

Não bastasse os exemplos de simplicidade dados por essas famílias, caminhei durante cinco minutos, até que um veículo passasse por mim e logo depois parasse. Continuei seguindo em frente, passando pelo carro devagar e olhando para dentro. O casal de senhores disse "Entra".

Desci no centro, passei mais algum tempo na cidade, e fui embora.

No segundo final de semana uma de minhas pautas foi relacionada ao Mercado Municipal. Falar das figuras de lá, como personagens, comidas, costumes. Falar do símbolo que o mercadão representa.

Fui na sexta-feira para a cidade, realizei entrevistas para outras matérias, e à noite toquei em um restaurante. Fui dormir às 3:30 da manhã, e acordei às 7:30 para ir ao mercadão. Me sentei junto a outras pessoas para tomar o café da manhã tradicional ali: café com pastel de farinha.

Alguns minutos depois comecei a encontrar as minha fontes. Uma delas, por sinal, estava acompanhada de sua filha, que me explicara na semana anterior onde seria um bom lugar para encontrar minhas fontes para a matéria da zona rural.

Comecei a encontrar várias pessoas. Fofoqueiras, jogadores de palito, baralho, e até de jogos de adivinhação. Passei cerca de meia hora dando risada enquanto assistia o jogo de adivinhação de cerca de cinco senhores, que zombavam um do outro, sempre dizendo "hoje você não vai ganhar nada, vai voltar só com xixi no bolso". Todos conversavam com o maior prazer.

O jogador de adivinhação, que após pergunta nomeou e descreveu o jogo como "Jogo de veio, porque não temos o que fazer", é que não queria dar entrevista a princípio, mas acabou aceitando responder as perguntas.

Você vê vários tipos de pessoas na cidade. Há tanta gente simples, que independente das dificuldades que tem na vida conversam com um sorriso no rosto, que não tem como você não aprender lições de vida com eles. Não são políticos, não têm pressa, e se sentem bem com uma boa conversa.

PS: enviei a postagem e esqueci de parabenizar as mulheres pelo dia 8. Faltavam 11 minutos para ser tarde demais. Então, parabéns pelo dia, que foi estabelecido após décadas e décadas de lutas por melhores condições de trabalho. Alguns fatos, como o incêndio em uma fábrica de tecidos em Nova Iorque, em março de 1911, que matou quase 150 mulheres, ressaltaram a necessidade de haver melhor estruturação nos locais de trabalho e valorização das trabalhadoras.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Xô, chuva

Fazia tempos que eu não acordava ao som de uma chuva tão forte, e foi o que aconteceu hoje pouco depois das 6 da manhã. No entanto, mesmo gostando de chuva, dessa vez foi torturoso ouvi-la.

Hoje eu tive o sonho mais real da minha vida, e foi desagradável. Apesar de não estar presente no momento, eu sonhei com a enchente de São Luiz em uma versão contrária ao que aconteceu comigo e minha mãe. Desta vez eu é que estava em casa, e ela não. Foi estranho sonhar que estava lá, e sentir momentaneamente um pouco do que ela sentiu. No sonho, diferente do que minha mãe fez, eu não havia conseguido achar um local seguro para os meus gatos.

Isso me fez ficar mais desesperado ainda e acordar assustado, na hora em que os seminaristas oravam na capelinha ao lado do quarto. Me espantei ao ouvir a forte chuva que caía, e imaginei se ela fora a culpada por eu sonhar com o ocorrido. De qualquer maneira, minutos depois, e com o coração já desacelerado, voltei a dormir. Voltei para o mesmo sonho. Acordei poucos minutos depois. Desisti de dormir.

Faltava pouco para chegar a hora de levantar, e aproveitei para fazê-lo. Estava preparado para uma longa caminhada até a Câmara Municipal, aonde teoricamente me encontraria com o grupo do projeto, pois o Jaime tinha um compromisso mais cedo e não poderia me levar.

Já de saída, encontrei com ele. Ele sairia mais tarde, no mesmo horário que eu. Aproveitei a carona, e esperei um bom tempo na Câmara, ansiosamente.

Infelizmente houve um desentendimento na comunicação entre Câmara, Unitau, e membros do projeto, e entenderam no final das contas que eu não poderia ir hoje. Foram sem mim de carro, e eu fui de ônibus.

Cheguei um pouco tarde, a reunião obviamente já acabara, e todos já estavam a trabalho. Conversei com o editor-chefe, Luiz Egypto, e fizemos alguns acertos para a minha pauta. Pouco tempo depois estava retornando à Taubaté, para trabalhar hoje e poder me ausentar amanhã.

Amanhã o carro sairá às 9:30 de Taubaté com os membros do jornal, e, contando com possíveis atrasos, a equipe deve chegar às 10:30. Como não iniciei minha produção hoje, pretendo ir mais cedo do que eles, de ônibus, pretendendo chegar às 8 da manhã na cidade. Se for voltar para Taubaté no mesmo dia, terei até as 21 horas para encerrar minha produção na cidade naquele dia. Acredito que será tempo suficiente para trabalhar boa parte da matéria. É um tema amplo: as condições da zona rural da cidade.

Obviamente o dia foi um tanto quanto estressante, pois caminhei aproximadamente uma hora em uma velocidade acelerada, tudo para conseguir chegar ao ponto de ônibus à tempo de ir para São Luiz, e depois para chegar a tempo no estágio. Tudo isso depois de ter acordado de maneira desagradável, e um plano falhar parcialmente. Sempre acompanhado pela chuva.

Mas não importa, eu imaginei alguma turbulência na primeira semana, e tenho mais algumas previsões para o final de semana, pois tenho compromissos urgentes pendentes.

Os problemas são nada, se comparados à oportunidade de crescimento que estou tendo esse ano.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Corra, News, corra!

Pela primeira vez na vida eu estou sentindo de verdade o que é ter cada vez menos tempo livre.

A faculdade voltou de vez, com dois dias de aula semanais, mais o dia de orientação do trabalho de conclusão de curso.

O estágio continua diariamente à tarde, exceto às sextas-feiras temporariamente, aparentemente.

E agora, após conversas entre responsáveis pelo projeto do jornal quinzenal de São Luiz do Paraitinga e o presidente da Câmara de Taubaté, começarei a ir às sextas-feiras para a cidade trabalhar nas matérias e, muito provavelmente, ficarei por lá nos finais de semana.

Cogitava-se a intenção de eu passar mais dias em São Luiz. Para não prejudicar a Câmara e poder compensar as quatro horas de trabalho durante os outros dias de estágio na semana, expliquei a todos que seria melhor eu ficar na cidade apenas a partir de sexta-feira.

O presidente da Câmara aceitou, o meu chefe apoiou. Não sei da reação dos outros ainda, ficarei sabendo amanhã.

Creio que passar cerca de três dias por lá semanalmente seja mais do que suficiente para fazer entrevistas, fotografar e visar novas pautas para a edição seguinte do periódico que, até onde sei, levará o nome de 'Reconstrução de São Luiz do Paraitinga'.

A parte da escrita será feita em qualquer lugar, seja São Luiz ou Taubaté. Na falta de um computador, haverá um lápis e papel à disposição. Essa questão me dá mais segurança ao falar de passar três dias na cidade. Não vejo razão para passar mais.

Amanhã, excepcionalmente, irei para lá. Na primeira reunião, realizada na semana passada, pensamos em pautas suficientes para a primeira edição do jornal. Irei com os dois outros estagiários de jornalismo que participarão do projeto, e na impossibilidade de presença da professora Angela, ela disse ser fundamental minha ida, para que eu pudesse colocar os companheiros à par do que já foi discutido.

Aos poucos estou me sentindo mais jornalista. Participar de reuniões de pauta, sair com mais frequência às ruas - lugar em que o jornalista sempre deve estar - para realizar entrevistas, ouvir pessoas contando suas histórias, publicá-las, e, acima de tudo, entender a relevância social do seu trabalho e como ele poderá ajudar a população, não tem preço.

Com relação ao meu trabalho de conclusão de curso, também estou bastante empolgado. Cada vez que converso com o meu professor orientador, Robson Bastos, vejo como ele também se empolga com o assunto. Ele me faz querer voar longe. Não, não, isso não é poesia. É no sentido literal mesmo.

Eu tive a ideia de inserir fotografias panorâmicas da cidade, e apontar os locais em que minhas fontes vivem/trabalham. Como pretendo usar fotografias de outros fotógrafos além das minhas, pensei em pedir que alguém liberasse o uso das imagens panorâmicas da cidade enquanto alagada. Robson me sugeriu que tentasse conseguir um voo de helicóptero para fotografar a cidade e possuir fotos panorâmicas que mostrassem a cidade em obras, afinal, a ideia não é congelar o trabalho na enchente, e sim nas ações realizadas posteriormente.

Eu achei a ideia excelente, e engraçada por parecer impossível. Antes que eu pudesse questionar a possibilidade de isso acontecer ele me passou alguns contatos que, possivelmente, poderão me levar para o alto. A Unitau e o Cavex (Centro de Aviação do Exército) de Taubaté possuem um bom relacionamento, e se considerarem o meu trabalho relevante, poderei conseguir minhas fotos (e participar de uma aventura).

O meu tempo livre está ficando cada vez mais escasso, mas a empolgação, ahh, a empolgação... essa não para de crescer.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Reconstruindo

Tenho ido bastante à São Luiz. Participei de uma reunião hoje, discutindo um projeto de elaboração de um pequeno jornal quinzenal no município que falará de tudo o que está acontecendo na cidade. Logo em seguida, acompanhei o final de uma reunião de especialistas de diversas áreas que estão planejando a reconstrução do município. A reunião me rendeu alguns ganchos para meu trabalho de conclusão de curso, e consegui, inclusive, conversar com a prefeita.

Aproveitando o assunto, deixo aqui o endereço do meu novo blog, que será destinado a relatar o dia-a-dia na produção do meu trabalho de conclusão de curso. O endereço não é definitivo, mas é fácil de se decorar, e talvez fique assim mesmo.

www.slp-2010.blogspot.com

Apesar dos apesares, as coisas estão dando certo para mim, principalmente neste trabalho. E eu quero que assim seja até a criação do produto final, para que o município receba uma contribuição documental decente feita por mim.

Continuo contente vendo a solidariedade dos outros com o município. No entanto, chegou o momento em que parte dessa solidariedade está atrapalhando! A prefeita Ana Lucia já publicou há algum tempo no site do município um comunicado oficial pedindo a suspensão da doação de roupas e alimentos. Estes não param de chegar.

Hoje, na reunião, ela afirmou que as doações continuam chegando independente do comunicado, e citou um dos exemplos que, infelizmente, atrapalham. "Um caminhão veio ontem do Rio de Janeiro lotado de roupas, independente do meu pedido de suspensão de doações. E eles nem avisaram que viriam! Não havia como negar a doação, mas já estamos lotados, e o excesso de roupas está atrapalhando. O ginásio está lotado, as crianças não podem jogar mais bola lá, e é trabalhoso fazer a triagem do que é doado, de tanta coisa que temos estocada. Precisamos despachar isso, as pessoas não precisam mais de roupas. Cogitamos até doar essas roupas para o Haiti, mas não há interesse nisso, pois afirmaram que o custo do transporte seria alto."

E não faz poucos dias que esse comunicado foi publicado. Eu vou espalhar a informação pelas comunidades do orkut afirmando que não há mais a necessidade de se doar roupas, e sim utensílios domésticos. Como dito no site da prefeitura, as pessoas estão começando a retornar a suas residências, e precisam ao menos do básico para poderem viver, na medida do possível, por conta própria.

Segue os endereços do comunicado, e do pedido dos itens de que a população carece no momento.

http://www.saoluizdoparaitinga.sp.gov.br/mensagem_imprensa.pdf

http://www.saoluizdoparaitinga.sp.gov.br/doacao.htm

Aconselho uma xeretada pelo site, e para quem puder, que faça doações para o município, mas que sejam as doações que realmente ajudarão.

A reunião de hoje discutiu diversos pontos, e houve inclusive a apresentação de um rascunho de projeto que prevê até um teleférico na cidade. Eu entendo que a cidade não será mais o patrimônio histórico de antes, por mais que os casarões sejam replicados, mas não sei se o município precisa virar um parque de diversões para reviver.

Havia extensas pontes, dentre outras coisas que se vê em cidades grandes. Parecia que uma das pontes passaria por cima do bairro em que eu vivi, Verde Perto. Para mim, isso já desqualifica a ideia. Uma ponte que passará por cima de casas? Se houver algum problema com a ponte, a casa será prejudicada. Uma ponte que passará por cima das casas não permitirá que o sol continue batendo nas residências. Algumas delas serão regadas de sombra o dia inteiro. Apesar do calor que passamos atualmente, acho que não é válido fazer uma casa ficar na sombra o dia inteiro, inclusive pelo fato de isso prejudicar o que há no interior.

De qualquer maneira, ideias são sempre bem-vindas. Deixemos que os especialistas deem suas ideias, independente das utopias que vez ou outra aparecerão. Enquanto isso nós, meros mortais, continuamos tentando ajudar a cidade como podemos.

Ô ô Barbosa

Carnaval estranho. Diferente dos três últimos anos, em que meus carnavais foram completamente situados em Sâo Luiz do Paraitinga, fui algo do tipo folião nômade. Passei dois dias em São Bento do Sapucaí, cidade que tem um pezinho em Minas Gerais, e um dia em Ubatuba, não longe daqui.

Me diverti em São Bento, mas independente dos problemas que o carnaval luizense estava tendo nos últimos anos - excesso de pessoas, sujeira, falta de respeito -, o carnaval da cidade quase mineira não me entreteu quase nada próximo do que eu me divertia pulando como maluco nos blocos de São Luiz, e, como de costume desde o meu primeiro ano lá, principalmente no bloco do Barbosa.

O carnaval luizense desse ano teve muitos lados.

Para mim, que esperava por exemplo ver meus amigos vindo de outros lugares para São Luiz, me dei mal. Planejei ir a São Paulo vê-los, e também não deu certo. Felizmente consegui me divertir com meus amigos daqui, mas faz uma falta tremenda não encontrar os irmãos paulistanos.

Para os luizenses que estavam cansados de ver mais de 180 mil pessoas na cidade de pouco mais de 10 mil habitantes, o carnaval foi interessante. Os blocos saíram em diversos lugares, em diversos horários. Não era nada exatamente programado, e muito menos divulgado. Eles sentiam falta disso. São os que veem o carnaval como uma festa da cidade apenas. Uma festa tradicional não comercial.

Para os que ganhavam consideravelmente bem no carnaval e usavam todo esse dinheiro para pagar suas contas no resto do ano, valia o sacrifício de aguentar tanta gente. Principalmente para os que haviam estocado produtos para vender na festa, a ausência das milhares de pessoas custou caro.

Apesar do saudosismo, da renda, dos prejuízos, da diversão, e dos planos que deram ou não certo, esse carnaval teve um sentido muito maior do que todos esses fatores: a união dos luizenses.

Mais do que sair pulando em um bloco acompanhando a letra de determinada marchinha, que se repete por minutos e minutos, mais do que sair tocando uma corneta desafinada tentando acompanhar o bloco, e mais do que se divertir bêbado fazendo qualquer coisa durante a festividade, os moradores de lá precisavam gritar, de uma vez por todas, que estão lá, juntos, lutando para a reconstrução da cidade, de suas vidas.

Mais do que uma marchinha, isso foi praticamente um grito de guerra, do tipo que os grupos fazem antes de, por exemplo, participarem de uma disputa. A disputa dos luizenses é mais séria do que de costume. Não é contra um grupo de iguais, e sim contra algo bem maior. Nada melhor do que mostrarem-se unidos, dando a todos a certeza de que, juntos, eles serão maiores do que as dificuldades.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Ruínas

Foi estranho passar algumas horas em São Luiz do Paraitinga hoje. Tive poucas horas para andar pela cidade toda, fotografar, conversar com as pessoas, de quebra arranjar fontes para o trabalho de conclusão de curso, e me adaptar com a cidade mais limpa do que antes, porém ainda em ruínas.

No ginásio poliesportivo da cidade conversei um pouco com quem trabalhava ali - gente da defesa civil, prefeitura, e voluntários -, e fiquei satisfeito de ver tantas doações. Para mim, pode-se acreditar pouco nas pessoas, mas ninguém pode negar que a solidariedade ainda existe. Um veículo escolar cheio de doações chegou logo depois do ônibus no qual eu fui para a cidade, e foi engraçado ver as pessoas descarregando o veículo às risadas, com o maior bom humor, mesmo com o calor excessivo que fazia na cidade.

Depois foi vez de andar pelo bairro no qual eu vivi. As calçadas, que por ora ficaram cheias de móveis, já estavam vazias. A caminhada até o final do bairro foi tranquila, sem muitas paradas por coisas que me chamaram a atenção. No entanto, chegando à frente da casa em que vivi, obviamente parei. Me aproximei do portão, que estava trancado com uma corrente, e me preparava para dar a meia volta e olhar o final da rua. Antes de me virar, olhei para o final do corredor de casa, e me surpreendi ao ver duas flores rosas vivas. Tentei fotografar, não deu muito certo com a câmera que estava comigo, e parti.

Indo para o final da rua ver a condição das calçadas, que estão desabando aos poucos, comecei a pensar no que poderia significar flores vivas no quintal de uma casa abandonada, com as paredes sujas. No meio daquela cor morta, flores vivas. Deu tempo apenas de pensar "esperança?", até que começasse a chorar enquanto andava.

Entre passos e prantos continuei fotografando a calçada, que chegava a dar medo de tão destruída. Fiz o caminho de volta, e me dirigi para o centro, mas não pela ponte reinaugurada há pouco. Segui reto, para utilizar uma segunda entrada para o centro. Mais uma vez me espantei ao ver a razão de a rua estar interditada: havia um trecho em que a rua estava afundando, e próximo a ela havia partes de uma calçada destruída.

Chegando ao trecho que me levaria ao centro, esperava ver uma escola um pouco quebrada no meio do caminho. Me assustei ao ver que o grande muro que fechava a escola não estava mais ali. Desapareceu. Sem conter a curiosidade, entrei na escola, olhei as salas, e tudo o que estava destruído e destelhado.

Seguindo em frente, fiquei perdido no centro. Por mais que a cidade estivesse muito mais limpa do que semanas atrás, era chocante ver tantas casas desmoronadas. Cheguei a tomar liberdade para entrar no antigo espaço de uma casa. O cheiro de comida estragada que senti semanas atrás onde eu morava voltou com tudo. Menos pior, porque a casa estava vazia, mas bastante enjoativo.

Segui em frente, com várias paradas para fotografar o que restou das casas. As casas que desabaram, geralmente, não permitiam nem uma aproximação maior, muito menos entrar como fiz na primeira. Isso me fez começar a pensar em como será entrevistar as pessoas que perderam as casas, e diariamente passam em frente às ruínas. Alguns minutos depois passei em frente à casa em que meu amigo luthier e músico Silvio trabalhava. Ele, com cerveja na mão, me respondia diversas perguntas, e, quando perguntado se sua casa havia sido atingida, respondeu humoradamente que "na Várzea dos Passarinhos sua casa fora uma das únicas em que a água subiu apenas 6 metros... só passou do teto".

Silvio sempre ajudou a mim e meus amigos de banda a conseguirmos um espaço musical na cidade. Dessa vez ele ajudou aceitando ser fonte do trabalho, e oferecendo abrigo em caso de necessidade nos dias em que irei à cidade. Ele também sugeriu que eu fosse olhar a situação do bairro Várzea dos Passarinhos, explicando como estava o local. O tempo era curto, o sol estava forte, e fui rapidamente ao bairro, que apesar de ser necessário subir bastante para chegar a ele, a descida seguinte o deixa ao lado do rio, e o fez ser fortemente atingido.

Não houve tempo para andar por toda a Várzea, o bairro é extenso, e o tempo curto. Desci novamente para dar uma olhada na situação do Mercado Municipal, que foi totalmente atingido. Nos minutos seguintes conversei com mais pessoas, e fui andar (e correr também quando eu vi o pouco tempo que me restava) um pouco ao lado do rio para ver a situação das ruas.

Minutos depois estava na rodoviária esperando o ônibus de volta para Taubaté. Nisso, vi um grupo de pessoas uniformizadas conversando próximas a ônibus fretados, e obviamente não podia perder a chance de saber quem eram. Era um grupo de voluntários - alunos, professores, funcionários, parentes destes, etc -, da universidade Mackenzie. Me disseram que havia um projeto na instituição para fazer serviços sociais durante dias, e explicaram que a viagem para São Luiz não estava nestes planos. Haviam feito um "edição especial" do projeto para ajudar a cidade, e foram mais de 100 pessoas ajudando a cidade com diversos serviços. Obviamente, mais contatos para o trabalho.

A volta para casa foi tranquila, depois de horas bem cansativas na cidade. Fico feliz de ter conseguido mais fontes para o trabalho, além de uma vasta documentação fotográfica da atual situação da cidade. A próxima passagem pela cidade está prevista para o dia 13, em que haverá uma audiência pública para discutir ações preventivas e planos de reconstrução para a cidade.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Poucos dias após meu retorno à casa do Marcelo, é hora de bancar o nômade e pular para outra casa. Fora os dias que passei em São Paulo e na praia, foram quase três semanas na casa dele. Já enchi bastante sua família, e com certeza não terei como agradecer o suficiente por me ajudarem tanto.

Já cheguei ao novo local onde me abrigarei: um seminário. Meu amigo, também estudante de jornalismo, além de padre, Jaime, me ofereceu hospedagem por aqui. Ele, outros padres e estudantes de teologia, futuros padres, vivem aqui. Todos se espantam quando eu falo para onde viria, afinal, é diferente ter um amigo padre que estuda jornalismo, é diferente uma pessoa se hospedar aonde padres vivem, e podem achar curioso um agnóstico aceitar com o maior prazer conviver com padres.

Eu acho que é aí que está a essência da fé. É cansativo ver como até hoje as religiões se confrontam em busca de "ter" a verdade absoluta. Aliás, é triste como são as próprias pessoas que certas vezes fecham seus olhos para a fé, se importando apenas em dizer que sua igreja é que é a verdadeira.

Como sempre, sou grato à minha mãe pela sua maneira estudiosa de ser, que despertou grande curiosidade em mim em relação a, dentre tantas coisas, estudar religiões. E isso tudo sem o ceticismo de afirmar como muitos estudiosos "eu estudo religiões, e não acredito em nada". Ela sempre falou de Deus, sempre falou de fé. Nos últimos anos, principalmente nos meus três anos em São Luiz do Paraitinga, cidade que inspira a vontade de sentar no mato e refletir, a questão "ter fé" passou muito pela minha cabeça.

Nossa mudança para São Luiz foi resultado dos fatores necessidade+vontade. A vida em Sâo Paulo estava cara, dando despesas demais para minha mãe, e ela tinha vontade de morar em um retiro, longe do trânsito, stress, tudo. Acho que foi nessa mudança radical de vida (morar 18 anos em São Paulo e mudar para São Luiz) que comecei a pensar nisso, afinal, mudamos com fé, tendo a esperança de que nossa vida melhoraria.

De fato, melhorou no aspecto de me dar mais oportunidades. Morar em um lugar relaxante, viajando diariamente para estudar e trabalhar, é uma boa maneira de ter paz espiritual. Pode parecer cansativo, mas eu sempre preferi viajar diariamente numa poltrona, vendo lindas paisagens, do que pegar um ônibus em São Paulo, com trânsito, poluição, gente apertada. Até o custo da passagem em Sâo Paulo saía mais caro para mim. É, eu acho que essas viagens intermunicipais eram o sonho de todos os meus amigos que vivem em São Paulo dependendo do transporte público.

Deixar São Paulo saiu caro para mim somente por causa desses amigos, que me fazem falta. Mas não posso reclamar, minha vida mudou demais nos últimos anos, e mesmo com os problemas que surgiram, mudou para melhor.

Agora estou em um seminário, com a possibilidade de sentar na grama e pensar na vida, ter novamente paz espiritual, mesmo que momentânea, pelas responsabilidades e urgências que tenho no momento. Pretendo até assistir ou participar do que fazem por aqui. Quem sabe dar uma xeretada na biblioteca procurando algo que um leigo possa entender. Possivelmente, até assistir a uma missa celebrada pelo Jaime. Faz muitos anos que não assisto a uma, e independente de não seguir a doutrina, sei que me faria bem participar disso com um amigo.

É o que eu falo: fé está muito além do que se diz das religiões. Dela vem a esperança das pessoas, que acreditam, mesmo que sem ver possibilidades, em algo melhor para suas vidas. É muito mais do que se fazer restrições achando que elas é que lhe darão uma vida melhor. É acreditar na possibilidade de se reerguer independente do que aconteça. Tendo fé, lutando com ela, e não dependendo dela, achando que tudo cairá do ceu, é possível ganhar algo novo, ou reconquistar algo que lhe foi tirado. E, acima de tudo, é crer que apesar das divergências das religiões, da visão de cada pessoa sobre quem ou o que é Deus, e sobre como chegar a ele, o respeito é fundamental.

Acho que por isso me faz bem ter um amigo padre, e conviver com ele. Desde o início da faculdade eu falo da minha visão e da minha mãe a ele, e nunca houve qualquer preconceito entre os dois. O máximo que eu fiz foi colocar um fone no ouvido dele enquanto ouvia música pesada, e disse "curte aeee, Santidade".