Vou reproduzir aqui um pequeno artigo que escrevi para o Comunicando, o informativo da paróquia da turma que está me abrigando, dirigido pelo meu amigo Jaime. A edição saiu há algum tempo, mas só agora lembrei de passar o texto para cá. É um assunto passível de outras discussões, mas que por ora não aprofundarei. O título do texto é o mesmo do título da postagem.
'Mais uma vez o mundo está parando para ver uma copa do mundo de futebol, o maior evento esportivo que existe. No Brasil, o gosto pelo esporte leva muitos a fazerem contagens regressivas para o início do evento e comprarem parafernálias em verde e amarelo. Tudo para desfrutar de alguma maneira desse evento, que a cada edição apresenta diversos aperfeiçoamentos tecnólogicos, como apresentações em alta definição ou três dimensões, destaques dessa edição do evento.
Essa é a parte acessível a poucos, mas que sempre é destacada. Como se sabe, o Brasil praticamente congela nessa época. As mídias se resumem aos jogos, e os serviços na maioria dos lugares se tornam precários - há empresas que chegam a dispensar os funcionários em dias de jogos da seleção! Ou seja: enquanto a seleção jogar (e não apenas a nossa), muitos brasileiros deixarão seus deveres de lado.
E assim, mais uma vez, os problemas do país ficarão num segundo plano. E isso porque a copa ainda não acontecerá aqui. Mas e como será em 2014, quando a copa for realizada no Brasil? É lamentável ver que, anos antes, a prioridade do país seja injetar bilhões na adaptação de estádios e municípios para receberem o evento. A princípio a estimativa de custo para isso era R$ 714 milhões, mas agora se prevê R$ 17,5 bilhões.
Enquanto isso saúde, educação, e tantos outros setores precisam desse tipo de investimentos. Mesmo assim, os maiores e mais rápidos são na tentativa de fazer o país brilhar aos olhos do resto do mundo, e não de atender as nossas necessidades. Tem alguma coisa errada aí.'
terça-feira, 6 de julho de 2010
terça-feira, 1 de junho de 2010
São Luiz e suas cores
Não podendo relatar detalhadamente, contarei um pouco do que vi na festa do Divino Espírito Santo em São Luiz do Paraitinga. A festa foi maravilhosa. Provavelmente contou com provas de fé muito maiores do que nos outros anos. As novenas foram realizadas na praça central, em um espaço provisório montado pela prefeitura, com um grande toldo, para eventos.
Todas as cadeiras do espaço, que não correspondiam ao número de assentos da igreja matriz, ficavam facilmente ocupadas. Ao redor do espaço, algumas pessoas sentadas nos bancos da praça próximos do local da novena, e dezenas de pessoas em pé com suas bandeiras em mãos sem demonstrar sacrifício algum por não terem aonde sentar durante cerca de uma hora de orações e reflexões.
Achei bem legal o fato de padres jovens terem participado das novenas. A presença de um padre recém-ordenado naquele espaço, naquele momento, deve ter representado um grande sinal de esperança a todos. Depois de tudo o que ocorreu, acho importante ter aquele símbolo jovem simbolizando a possibilidade de reconstruir o que por algum tempo se dera como perdido.
No primeiro dia, houve a tradicional ida ao Império após a novena. A decoração desse ano, sob responsabilidade do Paulinho do Correio, como é conhecido, envolveu o uso de garrafas PET nas luminárias do local. O ambiente era apertado, como de costume, mas estava lindo. A diferença, nesse ano, foi a presença de uma grande imagem da igreja matriz da cidade ali.
A distribuição do afogado - que nesse evento é feita com uma mistura de alimentos, como arroz, macarrão, carne e batata -, dessa vez, foi no mercado municipal. A enchente acabou fazendo a festa recorrer ao costume antigo de tornar o mercadão palco de parte da festividade.
Fotografando a preparação do local para o primeiro dia da distribuição do afogado conheci um italiano gente fina, chamado Lucca. Ele mora em São Paulo atualmente com a esposa, e foi à cidade fotografar o evento como voluntário de um projeto que será realizado na cidade, abordando também a reconstrução. Falei do assunto do meu TCC, e que era voluntário do Jornal da Reconstrução - foi engraçado ver ele abrindo a pochete e tirando de lá a última edição do jornal, perguntando se era naquele jornal que eu trabalhava. Ele pediu uma eventual ajuda na produção do material no qual ele também estava trabalhando.
No dia seguinte ocorreu o encontro das bandeiras. O encontro foi realizado em frente à Santa Casa e à câmara municipal, e poucos minutos depois estavam todos indo ao centro da cidade acompanhados pela banda municipal.
Na semana seguinte fui a cidade na sexta-feira cedo, como de costume, fazer as apurações para o jornal. Como havia um tempo vago, eu e um colega de trabalho visitamos as ruínas da igreja matriz. Fomos acompanhados por uma simpática estagiária da Unesp, que explicou como o serviço estava sendo realizado. Ela disse que a previsão da empresa responsável pelos cuidados no local é de que o espaço esteja limpo em agosto/setembro.
Não sei se é permitido ficar postando imagens do que já foi encontrado por lá (há várias prateleiras com achados - inteiros ou em partes), mas ao menos uma, num espaço próximo a uma das portas de entrada do local, eu vou colocar. Não dá para ver muita coisa, e há muuuito a se fazer por ali ainda. Grande parte dos destroços ainda não foram tocados.
Pouco depois do almoço e uma rápida conversa com professores vindos de fora com uma turma de jovens estudantes, fui à rua vê-los descendo com os bonecões João Paulino e Maria Angu caminhando e fazendo barulho até o mercado municipal.
A proposta daquela escola é fantástica. As crianças foram conhecer a cidade, mas não ficaram apenas ouvindo a história da cidade e de suas festas. Além de participarem animadamente da saída dos bonecões até o mercadão, ao som de um bumbo somado a várias vozes que anunciavam a passagem dos bonecões, as crianças tiveram a oportunidade de produzir o material comumente usado tempos atrás para a edificação das casas: a taipa. Eu me assustei ao ouvir isso, pois NUNCA vi uma escola propor esse tipo de atividade. É admirável ver uma escola dando tanto valor à cultura na hora de educar as crianças.
Já no final da tarde, fiz minhas costumeiras caminhadas por trechos não tão frequentados, e notei que já estava bem mais fácil passar pelo trecho que liga a rodoviária ao centro histórico. Há bem menos terra, e há um caminho nivelado pelo qual pessoas podem facilmente fazer a travessia.
Vi essa senhora passando pelo local, e a acompanhei silenciosamente por um tempo tirando algumas fotos. Depois de algumas fotos, acelerei o passo, e enquanto passava lentamente por ela, ela começou a falar. Eu senti tanta amargura em sua voz, tão fraca, que não sabia se ela começaria a chorar, mas percebi que por dentro ela estava machucada. Durante nossa caminhada no trecho de terra, ela foi explicando que perdeu tudo, e que não sabia bem o que fazer. Só de lembrar desse momento eu quase chorei aqui. Ela contou que agora havia dificuldade em andar pelo centro, pois estava morando no bairro Santa Terezinha (fica num trecho BEM alto e afastado, principalmente para uma senhorinha), e que era estranho andar pela cidade sentindo falta de tanta coisa.
Como de praxe, falei que também fui atingido pela enchente, e mesmo sabendo que o que ela sentiu e sente é, com certeza, muito além do que eu posso entender (é o que falei no texto Memórias, pois ela se habituou a ver certas coisas por décadas, então a perda foi muito mais que da parte material), acredito que explicar isso poderia deixá-la um pouco mais confortável. Talvez ela tenha pensado que pelo menos um pouco do que ela está passando esteja acontecendo comigo também, e que eu a entenderia.
No sábado, infelizmente, não pude ir à festa, e perdi a famosa cavalhada de Catuçaba, que todo ano se apresenta no evento encenando um conflito entre mouros (muçulmano/sarraceno) e cristãos na Idade Média.
No domingo cheguei no início da tarde e acompanhei apresentações de diversos grupos pela cidade. Havia congada, moçambique, e danças para todos os lados, além do tradicional pau-de-sebo chacoalhando para lá e para cá enquanto vários rapazes tentavam subi-lo para alcançar o dinheiro amarrado no seu topo.
Vi também o grupo Manjarra, que faz diversas encenações divertidas durante a festa do Divino. Sempre gostei de fotografá-los pela espontaneidade de suas ações, e pelo modo como o gosto pelo que fazem e as cores que eles portam deixam o cenário mais bonito. Por isso, deixarei aqui uma foto que tirei sentado durante uma encenação deles. As cores nela chamaram a atenção de muita gente, e por isso me senti um grande felizardo fazendo essa captura. Além da beleza, ela tem uma mensagem fundamental: São Luiz voltou a ser colorida.
Fotografando a preparação do local para o primeiro dia da distribuição do afogado conheci um italiano gente fina, chamado Lucca. Ele mora em São Paulo atualmente com a esposa, e foi à cidade fotografar o evento como voluntário de um projeto que será realizado na cidade, abordando também a reconstrução. Falei do assunto do meu TCC, e que era voluntário do Jornal da Reconstrução - foi engraçado ver ele abrindo a pochete e tirando de lá a última edição do jornal, perguntando se era naquele jornal que eu trabalhava. Ele pediu uma eventual ajuda na produção do material no qual ele também estava trabalhando.
No dia seguinte ocorreu o encontro das bandeiras. O encontro foi realizado em frente à Santa Casa e à câmara municipal, e poucos minutos depois estavam todos indo ao centro da cidade acompanhados pela banda municipal.
Não sei se é permitido ficar postando imagens do que já foi encontrado por lá (há várias prateleiras com achados - inteiros ou em partes), mas ao menos uma, num espaço próximo a uma das portas de entrada do local, eu vou colocar. Não dá para ver muita coisa, e há muuuito a se fazer por ali ainda. Grande parte dos destroços ainda não foram tocados.
A proposta daquela escola é fantástica. As crianças foram conhecer a cidade, mas não ficaram apenas ouvindo a história da cidade e de suas festas. Além de participarem animadamente da saída dos bonecões até o mercadão, ao som de um bumbo somado a várias vozes que anunciavam a passagem dos bonecões, as crianças tiveram a oportunidade de produzir o material comumente usado tempos atrás para a edificação das casas: a taipa. Eu me assustei ao ouvir isso, pois NUNCA vi uma escola propor esse tipo de atividade. É admirável ver uma escola dando tanto valor à cultura na hora de educar as crianças.
Já no final da tarde, fiz minhas costumeiras caminhadas por trechos não tão frequentados, e notei que já estava bem mais fácil passar pelo trecho que liga a rodoviária ao centro histórico. Há bem menos terra, e há um caminho nivelado pelo qual pessoas podem facilmente fazer a travessia.
Como de praxe, falei que também fui atingido pela enchente, e mesmo sabendo que o que ela sentiu e sente é, com certeza, muito além do que eu posso entender (é o que falei no texto Memórias, pois ela se habituou a ver certas coisas por décadas, então a perda foi muito mais que da parte material), acredito que explicar isso poderia deixá-la um pouco mais confortável. Talvez ela tenha pensado que pelo menos um pouco do que ela está passando esteja acontecendo comigo também, e que eu a entenderia.
No sábado, infelizmente, não pude ir à festa, e perdi a famosa cavalhada de Catuçaba, que todo ano se apresenta no evento encenando um conflito entre mouros (muçulmano/sarraceno) e cristãos na Idade Média.
No domingo cheguei no início da tarde e acompanhei apresentações de diversos grupos pela cidade. Havia congada, moçambique, e danças para todos os lados, além do tradicional pau-de-sebo chacoalhando para lá e para cá enquanto vários rapazes tentavam subi-lo para alcançar o dinheiro amarrado no seu topo.
Vi também o grupo Manjarra, que faz diversas encenações divertidas durante a festa do Divino. Sempre gostei de fotografá-los pela espontaneidade de suas ações, e pelo modo como o gosto pelo que fazem e as cores que eles portam deixam o cenário mais bonito. Por isso, deixarei aqui uma foto que tirei sentado durante uma encenação deles. As cores nela chamaram a atenção de muita gente, e por isso me senti um grande felizardo fazendo essa captura. Além da beleza, ela tem uma mensagem fundamental: São Luiz voltou a ser colorida.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Um pouco de jornalismo
A princípio, o título desse post era "Títulos e manchetes", para falar um pouco de algumas coisas que vi recentemente, mas percebi que acabei falando um monte de coisa a mais. Por isso, "Um pouco de jornalismo" (meio aleatório) para vocês.
A maneira de abordar determinados assuntos no jornalismo sempre foi uma questão pautada pelas empresas, pelos jornalistas, e pelos estudantes, que às vezes também já se incluem na gama de jornalistas.
Nós sabemos que, em cinquenta e poucos caracteres (na internet não há tanto essa preocupação de limite de caracteres, visto que o espaço é infinito), devemos elaborar um título atrativo.
Se o leitor tiver interesse em ler, seja pelo assunto ou pela atratividade gerada pelo título, ele vai para o primeiro parágrafo da matéria, que geralmente é aquela fórmula manjada do jornalismo: o LEAD (ou lide, aportuguesadamente). Nele consta todas as informações básicas da matéria - as seis perguntas bááásicas, que são Quem, o Quê, Quando, Onde, Como e Por Quê (salvas exceções nas quais uma ou mais dessas perguntas não são tão relevantes).
Se depois de o leitor tiver se atraído pela chamada e pelo lead, ele prosseguirá a leitura. Depois do lead, poderá haver o sub-lead, e por aí vai. Às vezes as matérias podem ser montadas de outra maneira (às vezes os próprios leads podem ser algo menos diretos do que 'O padeiro João vendeu cinquenta pães hoje em sua padaria devido à grande circulação de turistas tailandeses'). Eu, particularmente, me interesso muito mais em escrever reportagens, com aberturas não tão secas, etc.
Pelo que me recordo (não, eu não estava vivo nessa época, mas foi o que me lembro de ter lido), o lead foi criado durante a Segunda Guerra Mundial, época em que havia dificuldades impostas (pela falta de tecnologia, sem falar em bombas caindo por todos os lugares e gente se metralhando pra lá e pra cá) nos campos de guerra, e os soldados responsáveis pelas reportagens (da situação do local) deviam ser breves nos relatos. Daí, tinham que responder especificamente as seis questões. Posteriormente, como vi no novo seriado Band of Brothers, os líderes dos grupos relatavam mais detalhadamente a história de um confronto.
Atualmente, o uso do lead, mas o lead básico do básico mesmo, que fala de uma cueca mas nem especifica a sua cor, é muuuito usado. Os jornais impressos continuam usando-o muito, em uma época na qual eles perderam muito espaço. Para que esperar ler amanhã no jornal com matérias de hoje algo que só contenha as informações mais básicas? Antes da metade do século XX, o rádio, mesmo com toda aquela aparelhagem pesada e complicada, estava saindo à frente do jornalismo na instantaneidade. Posteriormente, a televisão acabou mais ainda com a instantaneidade, e ainda oferecia imagens em movimento. Atualmente, a internet enterrou de vez esse jornalismo básico. Ela é a única que pode relatar, a qualquer hora do dia (pois não depende de uma grade de programação), determinado fato. Sendo assim, todos nós sabemos que o jornal impresso só vai se salvar se começar a investir em textos mais aprofundados, que contenham algo que o rádio, a televisão e a internet ainda não tenham relatado.
Mas enfim, história do jornalismo à parte, o que me fez querer escrever a respeito do jornalismo foi ter visto, em um dia, um título de matéria estranho em um veículo online e duas chamadas em um jornal pequeno da região.
O título estranho que vi é de uma matéria anunciando a festa do Divino Espírito Santo, em São Luiz do Paraitinga. Encontrei o mesmo texto em mais de um lugar (das duas uma: ou o texto é um release, cujo título foi alterado, ou um veículo copiou outro), e em um desses lugares o título é "São Luiz do Paraitinga realiza Festa do Divino para resgatar turistas".
Sabemos que a cidade passou por maus, péssimos bocados, mas há de se tomar cuidado com o que diz. O título, o chamariz primário da matéria, diz que a cidade realizará a festa PARA RESGATAR turistas. Ou seja: por esse título, podemos entender que, se não fosse a importância de se trazer turistas, não haveria festa.
É claro que cidades promovem eventos buscando arrecadar turistas e fundos, mas há outras que são tradicionais, e que independem da presença do turista. A Festa do Divino lá de São Luiz é uma dessas. É a festa mais tradicional da cidade (não é a que atrai mais gente, perdendo apenas para o carnaval - mas, em contrapartida, os turistas do Divino consomem e não sujam tanto a cidade quanto os do carnaval).
Vou falar mais dessa festa em outro post, quando a festa terminar, mas posso adiantar que ela, para os devotos não-comerciantes, não depende de turistas. Diversos eventos acontecem ao mesmo tempo, gerando até reclamações de turistas que falam da "desorganização". Essa "desorganização" é a demonstração de fé de cada um desses grupos. Eles estão lá para fazerem suas manifestações de uma maneira bonita, mas sem se importar em ficar chamando a atenção apenas para eles.
Ou seja: o título distorceu totalmente o foco da festa. Felizmente o texto não seguia esse enfoque.
A outra situação é de um pequeno jornal regional que vi lá no meu estágio, cuja capa havia duas manchetes falando de suicídios. Fala-se tanto que os veículos evitam abordar questões de suicídio, pelo risco de poder influenciar negativamente o público (que tocante os veículos midiáticos - ou uma parte dela - se importando com as pessoas), e nesse pequeno jornal duas das manchetes tratam disso.
Tudo bem, talvez pela simplicidade desse jornal ele não seja capaz de mobilizar as pessoas, e, felizmente, não afetar pessoas com tendências suicidas, mas de qualquer maneira podia ser um tema evitado (se você pensar que o jornal é pequeno, e que duas das manchetes tratavam disso, entende-se que uma parte significante do jornal falava de suicídio).
Aí eu me pergunto a razão de o jornal publicar isso. Falta de assunto? De ética? Às vezes eles até tiveram um bom motivo pra isso. Às vezes não. Podem ter feito propositalmente, querendo chamar a atenção mesmo correndo o risco de serem sensacionalistas, ou até pra dizerem que deram um furo de reportagem, pelo fato de os outros veículos não publicarem isso. É claro que esse argumento seria ridículo, então duvido um pouco que seja isso. E, no final das contas, podem ter feito sem pensar em tudo isso, na maior ingenuidade que um jornalista não deve ter quando publica algo sabendo que o seu texto pode ir looonge e afetar várias pessoas.
Por isso ouvimos tanto os professores (sejam os do espaço universitário ou profissional) falarem para termos cuidado com o que dizemos. Um dia, algo que publicamos pode afetar negativamente uma pessoa, e nós poderemos nem ficar sabendo disso. É por isso que os meios de comunicação são poderosas armas. E não é à toa que chamam a imprensa de Quarto Poder.
A maneira de abordar determinados assuntos no jornalismo sempre foi uma questão pautada pelas empresas, pelos jornalistas, e pelos estudantes, que às vezes também já se incluem na gama de jornalistas.
Nós sabemos que, em cinquenta e poucos caracteres (na internet não há tanto essa preocupação de limite de caracteres, visto que o espaço é infinito), devemos elaborar um título atrativo.
Se o leitor tiver interesse em ler, seja pelo assunto ou pela atratividade gerada pelo título, ele vai para o primeiro parágrafo da matéria, que geralmente é aquela fórmula manjada do jornalismo: o LEAD (ou lide, aportuguesadamente). Nele consta todas as informações básicas da matéria - as seis perguntas bááásicas, que são Quem, o Quê, Quando, Onde, Como e Por Quê (salvas exceções nas quais uma ou mais dessas perguntas não são tão relevantes).
Se depois de o leitor tiver se atraído pela chamada e pelo lead, ele prosseguirá a leitura. Depois do lead, poderá haver o sub-lead, e por aí vai. Às vezes as matérias podem ser montadas de outra maneira (às vezes os próprios leads podem ser algo menos diretos do que 'O padeiro João vendeu cinquenta pães hoje em sua padaria devido à grande circulação de turistas tailandeses'). Eu, particularmente, me interesso muito mais em escrever reportagens, com aberturas não tão secas, etc.
Pelo que me recordo (não, eu não estava vivo nessa época, mas foi o que me lembro de ter lido), o lead foi criado durante a Segunda Guerra Mundial, época em que havia dificuldades impostas (pela falta de tecnologia, sem falar em bombas caindo por todos os lugares e gente se metralhando pra lá e pra cá) nos campos de guerra, e os soldados responsáveis pelas reportagens (da situação do local) deviam ser breves nos relatos. Daí, tinham que responder especificamente as seis questões. Posteriormente, como vi no novo seriado Band of Brothers, os líderes dos grupos relatavam mais detalhadamente a história de um confronto.
Atualmente, o uso do lead, mas o lead básico do básico mesmo, que fala de uma cueca mas nem especifica a sua cor, é muuuito usado. Os jornais impressos continuam usando-o muito, em uma época na qual eles perderam muito espaço. Para que esperar ler amanhã no jornal com matérias de hoje algo que só contenha as informações mais básicas? Antes da metade do século XX, o rádio, mesmo com toda aquela aparelhagem pesada e complicada, estava saindo à frente do jornalismo na instantaneidade. Posteriormente, a televisão acabou mais ainda com a instantaneidade, e ainda oferecia imagens em movimento. Atualmente, a internet enterrou de vez esse jornalismo básico. Ela é a única que pode relatar, a qualquer hora do dia (pois não depende de uma grade de programação), determinado fato. Sendo assim, todos nós sabemos que o jornal impresso só vai se salvar se começar a investir em textos mais aprofundados, que contenham algo que o rádio, a televisão e a internet ainda não tenham relatado.
Mas enfim, história do jornalismo à parte, o que me fez querer escrever a respeito do jornalismo foi ter visto, em um dia, um título de matéria estranho em um veículo online e duas chamadas em um jornal pequeno da região.
O título estranho que vi é de uma matéria anunciando a festa do Divino Espírito Santo, em São Luiz do Paraitinga. Encontrei o mesmo texto em mais de um lugar (das duas uma: ou o texto é um release, cujo título foi alterado, ou um veículo copiou outro), e em um desses lugares o título é "São Luiz do Paraitinga realiza Festa do Divino para resgatar turistas".
Sabemos que a cidade passou por maus, péssimos bocados, mas há de se tomar cuidado com o que diz. O título, o chamariz primário da matéria, diz que a cidade realizará a festa PARA RESGATAR turistas. Ou seja: por esse título, podemos entender que, se não fosse a importância de se trazer turistas, não haveria festa.
É claro que cidades promovem eventos buscando arrecadar turistas e fundos, mas há outras que são tradicionais, e que independem da presença do turista. A Festa do Divino lá de São Luiz é uma dessas. É a festa mais tradicional da cidade (não é a que atrai mais gente, perdendo apenas para o carnaval - mas, em contrapartida, os turistas do Divino consomem e não sujam tanto a cidade quanto os do carnaval).
Vou falar mais dessa festa em outro post, quando a festa terminar, mas posso adiantar que ela, para os devotos não-comerciantes, não depende de turistas. Diversos eventos acontecem ao mesmo tempo, gerando até reclamações de turistas que falam da "desorganização". Essa "desorganização" é a demonstração de fé de cada um desses grupos. Eles estão lá para fazerem suas manifestações de uma maneira bonita, mas sem se importar em ficar chamando a atenção apenas para eles.
Ou seja: o título distorceu totalmente o foco da festa. Felizmente o texto não seguia esse enfoque.
A outra situação é de um pequeno jornal regional que vi lá no meu estágio, cuja capa havia duas manchetes falando de suicídios. Fala-se tanto que os veículos evitam abordar questões de suicídio, pelo risco de poder influenciar negativamente o público (que tocante os veículos midiáticos - ou uma parte dela - se importando com as pessoas), e nesse pequeno jornal duas das manchetes tratam disso.
Tudo bem, talvez pela simplicidade desse jornal ele não seja capaz de mobilizar as pessoas, e, felizmente, não afetar pessoas com tendências suicidas, mas de qualquer maneira podia ser um tema evitado (se você pensar que o jornal é pequeno, e que duas das manchetes tratavam disso, entende-se que uma parte significante do jornal falava de suicídio).
Aí eu me pergunto a razão de o jornal publicar isso. Falta de assunto? De ética? Às vezes eles até tiveram um bom motivo pra isso. Às vezes não. Podem ter feito propositalmente, querendo chamar a atenção mesmo correndo o risco de serem sensacionalistas, ou até pra dizerem que deram um furo de reportagem, pelo fato de os outros veículos não publicarem isso. É claro que esse argumento seria ridículo, então duvido um pouco que seja isso. E, no final das contas, podem ter feito sem pensar em tudo isso, na maior ingenuidade que um jornalista não deve ter quando publica algo sabendo que o seu texto pode ir looonge e afetar várias pessoas.
Por isso ouvimos tanto os professores (sejam os do espaço universitário ou profissional) falarem para termos cuidado com o que dizemos. Um dia, algo que publicamos pode afetar negativamente uma pessoa, e nós poderemos nem ficar sabendo disso. É por isso que os meios de comunicação são poderosas armas. E não é à toa que chamam a imprensa de Quarto Poder.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Óia o jornal
Só atualizei o último post incluindo a quinta edição do jornal.
Ano I - nº 1 - 1ª Quinzena de março
Ano I - nº 2 - 2ª Quinzena de março
Ano I - nº 3 - 1ª Quinzena de abril
Ano I - nº 4 - 2ª Quinzena de abril
Ano I - nº 5 - 1ª Quinzena de maio
Fiquei feliz esses dias ao saber que o texto falando do meu avô foi publicado em um jornal da cidade em que ele vivia, Laranjal Paulista, onde meu pai e meus dois irmãos vivem atualmente.
Com relação ao Jornal da Reconstrução, me empolguei quando disseram que as publicações serão distribuídas em alguns dos maiores veículos do país. Isso pode não garantir um emprego, mas me contento de saber que estamos mostrando ao país que a cidade está se reerguendo. Espero que as outras cidades que têm passado por maus bocados também estejam recebendo a devida atenção.
E é só... só queria disponibilizar os links para o JR online, e agradecer a quem se interessar, ler e divulgar o material.
Ano I - nº 1 - 1ª Quinzena de março
Ano I - nº 2 - 2ª Quinzena de março
Ano I - nº 3 - 1ª Quinzena de abril
Ano I - nº 4 - 2ª Quinzena de abril
Ano I - nº 5 - 1ª Quinzena de maio
Fiquei feliz esses dias ao saber que o texto falando do meu avô foi publicado em um jornal da cidade em que ele vivia, Laranjal Paulista, onde meu pai e meus dois irmãos vivem atualmente.
Com relação ao Jornal da Reconstrução, me empolguei quando disseram que as publicações serão distribuídas em alguns dos maiores veículos do país. Isso pode não garantir um emprego, mas me contento de saber que estamos mostrando ao país que a cidade está se reerguendo. Espero que as outras cidades que têm passado por maus bocados também estejam recebendo a devida atenção.
E é só... só queria disponibilizar os links para o JR online, e agradecer a quem se interessar, ler e divulgar o material.
domingo, 25 de abril de 2010
Memórias
Queria entender o que acontece quando você está habituado a ver algo e, depois de tanto tempo, esse algo some. Acho que esse post é mais reflexivo do que os outros, e nada conclusivo.
Hoje fui para São Luiz cedinho fazer algumas entrevistas que faltavam para escrever uma matéria, e, como sempre saio atrasado de casa, só tomei café da manhã 3 horas depois de acordar (café saudável, por sinal: coca e coxinha).
Enquanto comia, uma senhora entrou na padaria, provavelmente olhou um cartaz com imagens da cidade, e falou "Saudades da minha igrejinha (se referindo à Igreja Matriz)... fui na missa do padre ontem (se não me engano foi a ordenação de um padre), e quando o sino badalou, até chorei".
Anotei a frase no celular para reproduzir aqui. Fiquei pensando no que passa pela cabeça daquela senhora e de tantos outros senhores que nasceram perto da Igreja Matriz, foram batizados nela, cresceram dando voltas na praça à sua frente, se casaram ali, e, tantas décadas depois, veem tapumes enormes, ruínas quase ordenadas após alguns meses de arrumação, e o sino, sobrevivente da tragédia, que já voltou a ser utilizado para convocar as pessoas para os atos religosos.
Em Taubaté, por exemplo, o prédio da CTI (Companhia Taubaté Industrial), ficou algum tempo sem tocar seu sino tradicional de décadas. Ele tocava no horário do almoço dos trabalhadores e em outros horários, como o de entrada e saída dos funcionários se não me engano.
Uma matéria na tevê mostrou senhores de idade que vivem perto do prédio, falando da falta que o sino fazia. Diziam ficar perdidos com a ausência do som que indicava o horário do almoço, dentre outras coisas.
Em São Luiz não é diferente. As pessoas sentiam falta de ouvir o sino badalando, e infelizmente sentirão falta de lugares históricos como a Igreja Matriz e a Capela das Mercês por um bom tempo, até que eles sejam reconstruídos (apesar de que, mesmo com a reconstrução dos locais, o sentimento de vê-los poderá ser diferente).
Conversando com uma amiga na internet nessa madrugada, falei de como tenho saudades de ver minha mãe e os meus gatos diariamente, algo a que me habituei há anos. A resposta dela foi interessante: "Não tenha saudades, você os tem."
Às vezes eu mesmo penso nisso, ainda mais pensando que os meus gatos não eram prioridade nos resgates da tragédia no começo do ano. Até parece que os bombeiros se dariam o trabalho de ficar pegando os gatos. E mesmo assim minha mãe deu um jeito de levar três deles a um lugar seguro, e os outros dois sobreviveram em casa mesmo, sendo que esses dois são a Mia, que tem quase 20 anos - é uma senhorinha -, e o Faraó, que é o mais lerdinho para pensar. Família ninja é outra coisa.
De qualquer maneira, a frase dita a mim, curta e direta, me ajudou mais a ver o lado bom da coisa. Se não, eu nem teria lembrado dela.
É claro que não é a mesma coisa o meu relacionamento com minha mãe e meus gatos, e as pessoas com os casarões e igrejas da cidade, nem pelo sentimento, pois o meu atualmente é de distância, e o delas é de perda.
Como vivi 18 anos em São Paulo, sendo 10 deles em um condomínio, meu maior apego patrimonial foi com o local em que vivi. Quando passo por lá, dá aquele sentimento de volta no tempo. Mas o condomínio ainda está lá.
Então por mais que eu já tenha tido minhas experiências, elas não se comparam ao que os luizenses, principalmente os de idade, sentem com essa perda. É algo que, naturalmente, nem eles conseguem explicar tão fielmente, por mais que se empenhem em demonstrar o tamanho da perda.
Me bateu essa curiosidade danada hoje... só queria entender o que acontece quando você está habituado a ver algo e, depois de tanto tempo, esse algo some...
Hoje fui para São Luiz cedinho fazer algumas entrevistas que faltavam para escrever uma matéria, e, como sempre saio atrasado de casa, só tomei café da manhã 3 horas depois de acordar (café saudável, por sinal: coca e coxinha).
Enquanto comia, uma senhora entrou na padaria, provavelmente olhou um cartaz com imagens da cidade, e falou "Saudades da minha igrejinha (se referindo à Igreja Matriz)... fui na missa do padre ontem (se não me engano foi a ordenação de um padre), e quando o sino badalou, até chorei".
Anotei a frase no celular para reproduzir aqui. Fiquei pensando no que passa pela cabeça daquela senhora e de tantos outros senhores que nasceram perto da Igreja Matriz, foram batizados nela, cresceram dando voltas na praça à sua frente, se casaram ali, e, tantas décadas depois, veem tapumes enormes, ruínas quase ordenadas após alguns meses de arrumação, e o sino, sobrevivente da tragédia, que já voltou a ser utilizado para convocar as pessoas para os atos religosos.
Em Taubaté, por exemplo, o prédio da CTI (Companhia Taubaté Industrial), ficou algum tempo sem tocar seu sino tradicional de décadas. Ele tocava no horário do almoço dos trabalhadores e em outros horários, como o de entrada e saída dos funcionários se não me engano.
Uma matéria na tevê mostrou senhores de idade que vivem perto do prédio, falando da falta que o sino fazia. Diziam ficar perdidos com a ausência do som que indicava o horário do almoço, dentre outras coisas.
Em São Luiz não é diferente. As pessoas sentiam falta de ouvir o sino badalando, e infelizmente sentirão falta de lugares históricos como a Igreja Matriz e a Capela das Mercês por um bom tempo, até que eles sejam reconstruídos (apesar de que, mesmo com a reconstrução dos locais, o sentimento de vê-los poderá ser diferente).
Conversando com uma amiga na internet nessa madrugada, falei de como tenho saudades de ver minha mãe e os meus gatos diariamente, algo a que me habituei há anos. A resposta dela foi interessante: "Não tenha saudades, você os tem."
Às vezes eu mesmo penso nisso, ainda mais pensando que os meus gatos não eram prioridade nos resgates da tragédia no começo do ano. Até parece que os bombeiros se dariam o trabalho de ficar pegando os gatos. E mesmo assim minha mãe deu um jeito de levar três deles a um lugar seguro, e os outros dois sobreviveram em casa mesmo, sendo que esses dois são a Mia, que tem quase 20 anos - é uma senhorinha -, e o Faraó, que é o mais lerdinho para pensar. Família ninja é outra coisa.
De qualquer maneira, a frase dita a mim, curta e direta, me ajudou mais a ver o lado bom da coisa. Se não, eu nem teria lembrado dela.
É claro que não é a mesma coisa o meu relacionamento com minha mãe e meus gatos, e as pessoas com os casarões e igrejas da cidade, nem pelo sentimento, pois o meu atualmente é de distância, e o delas é de perda.
Como vivi 18 anos em São Paulo, sendo 10 deles em um condomínio, meu maior apego patrimonial foi com o local em que vivi. Quando passo por lá, dá aquele sentimento de volta no tempo. Mas o condomínio ainda está lá.
Então por mais que eu já tenha tido minhas experiências, elas não se comparam ao que os luizenses, principalmente os de idade, sentem com essa perda. É algo que, naturalmente, nem eles conseguem explicar tão fielmente, por mais que se empenhem em demonstrar o tamanho da perda.
Me bateu essa curiosidade danada hoje... só queria entender o que acontece quando você está habituado a ver algo e, depois de tanto tempo, esse algo some...
segunda-feira, 29 de março de 2010
Resumo do diário de bordo
Várias semanas que não posto devido à correria da vida. Como minha intenção não é fazer necessariamente um diário, a correria não necessariamente fará o número de postagens crescer. Mas cabe colocar um resumo do que tem acontecido comigo.
O jornal da Reconstrução, de São Luiz, já foi lançado. A segunda edição saiu nesse final de semana, e a população finalmente tem a oportunidade de se informar mais sobre o que se passa na cidade. O jornal também está sendo disponibilizado na internet, no site do departamento em que estudo, de modo que todos tenham acesso a ele.
É só clicar aqui para ver a segunda edição (quando eu descobrir aonde foi parar a primeira, prometo postar aqui).
Com relação ao trabalho de conclusão de curso, estou preparando as pautas para entrevistar diversas fontes. De abril não passa, começo a escrever os primeiros capítulos do livro e a entrar em contato com fotógrafos pedindo permissão para usar suas imagens da cidade. Já consegui um número razoável de fontes, dentre moradores, pessoas públicas, gente responsável pela reconstrução de algo, etc.
Com relação à música, me apresentei duas vezes nas últimas semanas em um restaurante. Curioso mesmo foi tocar em uma missa, à convite do Jaime, há algumas semanas. Não é um sinal de mudança religiosa nem nada, mas possivelmente tocarei em outras missas / eventos religiosos. Na semana passada toquei uma música enquanto o Jaime fazia uma homenagem à uma professora da faculdade, que faleceu há alguns dias. Eu conheci a música no dia anterior, havia diversas notas estranhas que eu nunca havia feito, e errei bastante nos dois períodos de aula pelo nervosismo de não ter a segurança de conhecer tão bem a música. De qualquer modo, acho que o que importa é a homenagem.
Passadas longas semanas, darei um jeito de visitar minha mãe nesse ou no próximo final de semana... morro de saudades dela e dos meus gatos, que passavam o dia conversando comigo. Inclusive, sonhei com a Ciça, uma gata minha que morreu pouco antes de eu ir embora de São Paulo. Não sei se isso significa algo, mas minutos depois eu acordei com meus irmãos me ligando, para me avisarem que o meu avô faleceu hoje cedo.
Foi um dia estranho, mais reflexivo do que de costume, e apesar de querer priorizar a postagem sobre meu avô, fica mais coerente deixá-la depois desse meu resumo de vida.
O jornal da Reconstrução, de São Luiz, já foi lançado. A segunda edição saiu nesse final de semana, e a população finalmente tem a oportunidade de se informar mais sobre o que se passa na cidade. O jornal também está sendo disponibilizado na internet, no site do departamento em que estudo, de modo que todos tenham acesso a ele.
É só clicar aqui para ver a segunda edição (quando eu descobrir aonde foi parar a primeira, prometo postar aqui).
Com relação ao trabalho de conclusão de curso, estou preparando as pautas para entrevistar diversas fontes. De abril não passa, começo a escrever os primeiros capítulos do livro e a entrar em contato com fotógrafos pedindo permissão para usar suas imagens da cidade. Já consegui um número razoável de fontes, dentre moradores, pessoas públicas, gente responsável pela reconstrução de algo, etc.
Com relação à música, me apresentei duas vezes nas últimas semanas em um restaurante. Curioso mesmo foi tocar em uma missa, à convite do Jaime, há algumas semanas. Não é um sinal de mudança religiosa nem nada, mas possivelmente tocarei em outras missas / eventos religiosos. Na semana passada toquei uma música enquanto o Jaime fazia uma homenagem à uma professora da faculdade, que faleceu há alguns dias. Eu conheci a música no dia anterior, havia diversas notas estranhas que eu nunca havia feito, e errei bastante nos dois períodos de aula pelo nervosismo de não ter a segurança de conhecer tão bem a música. De qualquer modo, acho que o que importa é a homenagem.
Passadas longas semanas, darei um jeito de visitar minha mãe nesse ou no próximo final de semana... morro de saudades dela e dos meus gatos, que passavam o dia conversando comigo. Inclusive, sonhei com a Ciça, uma gata minha que morreu pouco antes de eu ir embora de São Paulo. Não sei se isso significa algo, mas minutos depois eu acordei com meus irmãos me ligando, para me avisarem que o meu avô faleceu hoje cedo.
Foi um dia estranho, mais reflexivo do que de costume, e apesar de querer priorizar a postagem sobre meu avô, fica mais coerente deixá-la depois desse meu resumo de vida.
Ê, seu Zé...
Meu avô, José Corrêa, mais conhecido pelas pessoas como 'Zé Corrêa', já fez um monte de coisas em Laranjal Paulista, onde meu pai e meus irmãos moram. Dentre elas, já foi prefeito e vereador.
Sempre foi uma pessoa rígida, daquelas que deixam o filho de castigo de frente para a televisão desligada quando tirava notas ruins. Não era de convivência fácil, ainda mais quando algo fugia do que estava acostumado a ver. Ele nunca foi chegado nos meus antigos brincos, nem nos meus piercings. Nem nos brincos e piercings do meu irmão Rafael (Fá), e muito menos na tatuagem dele.
Meu contato com ele se resumia a uma ou outra visita nas poucas vezes em que eu podia ir à Laranjal. Geralmente essas visitas coincidiam com o seu aniversário, natal, etc.
Ele sempre perguntava como estava a vida do neto que vivia longe. Dos netos que viviam perto ele sabia. Sempre disse acreditar que o neto jornalista pode e deve mudar as coisas, exercendo o seu papel social.
Independente de quem estava em sua residência durante as visitas, as conversas invariavelmente acabavam em política. Não importava se estava eu, que não entendo tanto de política, com ou sem meu pai e minha boadrasta, políticos da cidade, meu irmão mais novo Victor (Tito), que tende a ser o político dessa geração da família, e o Fá. A política laranjalense sempre acabava em pauta, e às vezes a política nacional, principalmente quando a televisão estava sintonizada em algum canal do tipo TV Senado.
Mais invariavelmente ainda, Seu Zé falava de sua atuação política no município. E não era para menos. Talvez por entender tanto de política, misturado à sua rigidez, ele foi asseguradamente o maior prefeito da cidade. Para se ter noção, ele conseguiu levar a Ajinomoto para a cidade há cerca de 30 anos. Atualmente a cidade tem aproximadamente apenas 27 mil habitantes, e suponho que décadas atrás ela fosse um pouco menor. Para se levar uma indústria do porte da Ajinomoto, não pode ser qualquer político.
Ele era casado com a dona Alice, a avó que chamava o refrigerante Kuat de 'Kuait'. Eles viviam juntos num grande sítio com cachoeira, porém após o falecimento da minha avó o sítio foi vendido. Seu Zé dependia dela, e não conseguiria viver sozinho no sítio, inclusive pelo fato de, após tantos anos casados, vir o sentimento de solidão.
Eu ainda era adolescente quando a vó Alice partiu, e me sentia estranho ao visitar o vô Corrêa em uma casa no centro da cidade, sem ver a vó, e vê-lo não tão sorridente, principalmente quando falava dela.
Ele era uma pessoa difícil de lidar, principalmente com o passar dos anos, levando a família a ficar um pouco afastada dele. Com o tempo, os problemas de saúde foram se agravando. Mesmo com tentativas de aproximação, principalmente para ajudá-lo, havia dificuldade em ficar muito próximo dele.
Nos últimos anos, começaram a vir internações pelos problemas de saúde. No ano passado o visitei com o meu pai e minha boadrasta durante uma internação na Santa Casa. Me senti mal por vê-lo na cama, fraco.
Pouco tempo depois ele voltara para casa um pouco melhor. Aliás, já percebi que nós Corrêas temos sangue ruim, do tipo 'vaso ruim não quebra' mesmo, ainda mais vendo a lucidez que o vô Corrêa teve até os 94 anos, e o vigor que o meu pai tem até hoje.
Quando eu e meus irmãos éramos crianças, reclamávamos demais da rigidez do meu avô, que, consequentemente, levou o meu pai a ser rígido também. Anos depois, os três jovens adultos, independente das situações passadas, reconhecemos que a criação rígida nos ensinou bastante. Certas vezes ela é necessária em variados graus, e não só com os outros, mas muitas vezes com nós mesmos.
De qualquer maneira, fico muito grato de saber que o Seu Zé viveu bem sua vida. Seus 94 anos representam cerca de 20 anos a mais do que a média da expectativa de vida de um brasileiro, e com certeza foi uma vida bem aproveitada, falando em nome de sua vida pessoal e política. Tenho a certeza de que a população de Laranjal Paulista sempre será grata pelo que meu avô fez pela cidade que amava.
Apesar de ter tentado levar o dia normalmente, foi um dia estranho. Minha distração era tamanha que, após o almoço, o prato escapou de minhas mãos durante a lavagem e quebrou. Felizmente o machucado foi insignificante.
No final de 2009 conversei com meu pai, que me sugeriu escrever uma biografia do Seu Zé. Infelizmente não houve tempo para entrevistá-lo, mas espero que haja algo significativo em sua memória, proporcionalmente ao homem que ele foi. Espero que eu mesmo possa fazer algo por ele, mas se por ventura isso não for possível, que alguém o faça.
Bem, não sei se homenagens ou agradecimentos póstumos chegam à pessoa de alguma maneira, então espero que ele saiba da importância que teve para sua família.
E se por acaso você der um jeito de ler isso, obrigado por tudo, vô Corrêa, em nome de sua família.
Sempre foi uma pessoa rígida, daquelas que deixam o filho de castigo de frente para a televisão desligada quando tirava notas ruins. Não era de convivência fácil, ainda mais quando algo fugia do que estava acostumado a ver. Ele nunca foi chegado nos meus antigos brincos, nem nos meus piercings. Nem nos brincos e piercings do meu irmão Rafael (Fá), e muito menos na tatuagem dele.
Meu contato com ele se resumia a uma ou outra visita nas poucas vezes em que eu podia ir à Laranjal. Geralmente essas visitas coincidiam com o seu aniversário, natal, etc.
Ele sempre perguntava como estava a vida do neto que vivia longe. Dos netos que viviam perto ele sabia. Sempre disse acreditar que o neto jornalista pode e deve mudar as coisas, exercendo o seu papel social.
Independente de quem estava em sua residência durante as visitas, as conversas invariavelmente acabavam em política. Não importava se estava eu, que não entendo tanto de política, com ou sem meu pai e minha boadrasta, políticos da cidade, meu irmão mais novo Victor (Tito), que tende a ser o político dessa geração da família, e o Fá. A política laranjalense sempre acabava em pauta, e às vezes a política nacional, principalmente quando a televisão estava sintonizada em algum canal do tipo TV Senado.
Mais invariavelmente ainda, Seu Zé falava de sua atuação política no município. E não era para menos. Talvez por entender tanto de política, misturado à sua rigidez, ele foi asseguradamente o maior prefeito da cidade. Para se ter noção, ele conseguiu levar a Ajinomoto para a cidade há cerca de 30 anos. Atualmente a cidade tem aproximadamente apenas 27 mil habitantes, e suponho que décadas atrás ela fosse um pouco menor. Para se levar uma indústria do porte da Ajinomoto, não pode ser qualquer político.
Ele era casado com a dona Alice, a avó que chamava o refrigerante Kuat de 'Kuait'. Eles viviam juntos num grande sítio com cachoeira, porém após o falecimento da minha avó o sítio foi vendido. Seu Zé dependia dela, e não conseguiria viver sozinho no sítio, inclusive pelo fato de, após tantos anos casados, vir o sentimento de solidão.
Eu ainda era adolescente quando a vó Alice partiu, e me sentia estranho ao visitar o vô Corrêa em uma casa no centro da cidade, sem ver a vó, e vê-lo não tão sorridente, principalmente quando falava dela.
Ele era uma pessoa difícil de lidar, principalmente com o passar dos anos, levando a família a ficar um pouco afastada dele. Com o tempo, os problemas de saúde foram se agravando. Mesmo com tentativas de aproximação, principalmente para ajudá-lo, havia dificuldade em ficar muito próximo dele.
Nos últimos anos, começaram a vir internações pelos problemas de saúde. No ano passado o visitei com o meu pai e minha boadrasta durante uma internação na Santa Casa. Me senti mal por vê-lo na cama, fraco.
Pouco tempo depois ele voltara para casa um pouco melhor. Aliás, já percebi que nós Corrêas temos sangue ruim, do tipo 'vaso ruim não quebra' mesmo, ainda mais vendo a lucidez que o vô Corrêa teve até os 94 anos, e o vigor que o meu pai tem até hoje.
Quando eu e meus irmãos éramos crianças, reclamávamos demais da rigidez do meu avô, que, consequentemente, levou o meu pai a ser rígido também. Anos depois, os três jovens adultos, independente das situações passadas, reconhecemos que a criação rígida nos ensinou bastante. Certas vezes ela é necessária em variados graus, e não só com os outros, mas muitas vezes com nós mesmos.
De qualquer maneira, fico muito grato de saber que o Seu Zé viveu bem sua vida. Seus 94 anos representam cerca de 20 anos a mais do que a média da expectativa de vida de um brasileiro, e com certeza foi uma vida bem aproveitada, falando em nome de sua vida pessoal e política. Tenho a certeza de que a população de Laranjal Paulista sempre será grata pelo que meu avô fez pela cidade que amava.
Apesar de ter tentado levar o dia normalmente, foi um dia estranho. Minha distração era tamanha que, após o almoço, o prato escapou de minhas mãos durante a lavagem e quebrou. Felizmente o machucado foi insignificante.
No final de 2009 conversei com meu pai, que me sugeriu escrever uma biografia do Seu Zé. Infelizmente não houve tempo para entrevistá-lo, mas espero que haja algo significativo em sua memória, proporcionalmente ao homem que ele foi. Espero que eu mesmo possa fazer algo por ele, mas se por ventura isso não for possível, que alguém o faça.
Bem, não sei se homenagens ou agradecimentos póstumos chegam à pessoa de alguma maneira, então espero que ele saiba da importância que teve para sua família.
E se por acaso você der um jeito de ler isso, obrigado por tudo, vô Corrêa, em nome de sua família.
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