Estamos acostumados (principalmente pessoas da minha geração) a ouvir frases um tanto quanto pesadas com relação ao destino da humanidade e demais seres vivos, incluindo o próprio planeta, como 'o futuro está nas mãos dos jovens', e 'veja a que ponto o mundo chegou'.
Não sei a razão, mas desde a minha adolescência a primeira frase vem à minha cabeça com certa frequência, e eu realmente acabo me sentindo parte de um grupo responsável por tomar alguma atitude decente pelo mundo.
Quanto à segunda frase, ainda me lembro do dia em que estava entrando no condomínio no qual morei em São Paulo até 2006, quando uma moradora reclamava com o porteiro a respeito da situação do mundo: catástrofes, desigualdade, corrupção, violência. Ela citava passagens pertencentes à suas crenças, e acreditava que os eventos negativos que se tornaram corriqueiros eram indícios do fim dos tempos.
Por mais que nunca tenha tido envolvimento com qualquer tipo de grupo que se mobilize para o fim da depredação no mundo - quando era mais novo eu tinha a maior vontade de participar daquelas invasões pacíficas do Greenpeace a navios que caçam baleias; hoje eu sou mais viking, e sou mais a favor da lei de talião com pessoas sem escrúpulos que destroem o planeta por dinheiro ou prazer - eu cresci com um certo idealismo, mesmo sem sair falando para os outros pararem de jogar lixo nas ruas e cousas do gênero.
Sempre tive a consciência de que não vou salvar o mundo (as primeiras coisas que falam quando você ingressa na faculdade de jornalismo: 1. você não vai ficar rico; 2. você não vai salvar o mundo), mas tenho a meta de fazer algo relevante que possa mudar algumas pessoas, e que elas façam o mesmo com mais pessoas, e por aí vai. Não pretendo me tornar um ecochato para aparecer, e sim tentar mobilizar as pessoas para atitudes simples que já ajudem o mundo de alguma maneira.
Sei que há eventos catastróficos que ocorrem no mundo que não necessariamente são causados pelo humano (afinal, a natureza tem seus ciclos, e algumas vezes as mudanças podem causar deformidades no que era comum no ciclo anterior, causando alterações na temperatura, solo, etc), mas a questão vai além das ações da natureza. Aparentemente tudo gira em torno do aquecimento global, e uns jogam a culpa nos outros pelos aumentos graduais da temperatura nos últimos anos, enquanto outros dizem que os atos humanos não interferem tanto nas alterações repentinas que ocorrem no planeta. Mais do que qualquer coisa, as consequências mais discutidas são os impactos que essas alterações trarão às vidas humanas.
Independente de quem está correto, qualquer uma das afirmações quer dizer que o humano interfere na vida dos outros, principalmente na dos que não são humanos. E há pessoas que não veem importância em qualquer uma das constatações, e não só não colaboram com o planeta como conseguem piorar bastante a situação.
Isso acontece em diversos graus: há grandes empresas que, procurando criar boas imagens, dizem que preservam o meio ambiente e tentam contribuir para a inclusão social dos desfavorecidos, enquanto do outro lado permitem vazamentos ou promovem a desigualdade com trabalhos escravos em cantos escondidos do mundo.
No caso desse texto, o exemplo usado não será uma grande empresa, que visa lucros milionários, e sim pessoas quaisqueres, como eu ou quem ler isso.
Hoje, enquanto assistia a um telejornal para realizar as tarefas diárias do trabalho, vi uma matéria aqui da região falando de um incêndio criminoso na rodovia Oswaldo Cruz, que liga Taubaté, no Vale do Paraíba, a Ubatuba, no litoral norte (entre as duas cidades está São Luiz do Paraitinga, onde morei durante três anos).
Muito provavelmente não é criminoso no sentido de que alguém pegou um lança-chamas e incendiou o local para empobrecer um fazendeiro qualquer. Deve ter sido, simplesmente, um imbecil que passava de carro e jogou uma bituca de cigarro no mato seco - não há chuva nessa região há dois meses. O custo dessa queimada estúpida: 400.000 m² (equivalente a mais de 50 campos de futebol, levando em conta um cálculo médio das exigências da Fifa para um campo, 105x70m).
Segundo a reportagem, foram registrados 1.219 focos de incêndio em 2009 nesta região. Faltando quatro meses para o fim de 2010, 1.697 focos já foram registrados nesse ano. Destes, a maioria teria tido início causado pelas típicas ações irresponsáveis, como jogar uma bituca de cigarro no mato ou iniciar um incêndio """""controlado""""", que também é uma atitude babaca, visto que isso empobrece muito o solo, e muitos infelizes fazem isso querendo limpar o espaço para começar a cultivar algo.
O que dá para dizer a essas pessoas? Aliás, muitas delas nem sabem o tremendo prejuízo que causaram à natureza - fauna e flora - e a proprietários dos terrenos queimados, porque só estão de passagem por ali!
Outra notícia de hoje? "Parque (Nacional) das Emas sofre destruição de 90%". O parque, situado no Centro-Oeste, tem 132.000 hectares (usando os mesmos cálculos de antes, isso equivale a quase 180.000 campos de futebol). A destruição de 90% equivale a 118.000 hectares (ISSO EQUIVALE A MAIS DE CENTO E SESSENTA MIL CAMPOS DE FUTEBOL!). O fogo começou em plantios de soja ao redor do parque e se alastrou pelos fortes ventos dos últimos dias.
Para esclarecer um pouco mais (e não deixar a entender que só o equivalente a campos de futebol foi queimado), consultando a Wikipedia encontrei o tópico "Importância do parque". Em resumo, ali era um ponto fundamental para manter características da fauna e flora do Cerrado. Ali tentava-se manter vivo, pelo que contei, 51 espécies da fauna, e 42 da flora. Dentre elas, várias espécies em extinção!
Voltando à matéria do Estadão, dados indicam que a maior parte dos incêndios ocorrem no Cerrado, e que 67% deles começam em áreas privadas, com índios ou fazendeiros imbecis que tentam fazer essa "queimada controlada", e acabam ferrando com tudo. Ou seja: para "cuidarem" de suas terras, eles acabam com centenas de espécies.
Sério, se o mundo estivesse nas mãos da minha geração, eu pediria a liberação do porte de tacos de beisebol para a aplicação de disciplinamentos mais rígidos... no entanto, tem tanta gente da minha idade que ajuda a piorar as coisas que às vezes eu fico é pensando em como o mundo seria mais feliz daqui para frente se todos os humanos sumissem...
terça-feira, 31 de agosto de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Amizade (nostalgia+post gigante)
"Pode acontecer um monte de merda na minha vida, mas se tem algo de que não posso reclamar é dos amigos que tenho."
O Mineiro (amigo de São Luiz do Paraitinga) falou isso nesse final de semana, enquanto íamos de ônibus à Lagoinha, para passar o dia com o Kannu (nós três tocávamos juntos). Fazia cerca de um mês que eu não via o Mineiro, e acho que uns seis meses que não via o Kannu.
Eu os conheci logo que mudei para São Luiz: o Mineiro trabalhava como chapeiro e sempre deixava um violão guardado embaixo do carrinho de lanches, e depois de conhecê-lo comecei a levar o meu violão também para tocarmos juntos. Para socializar mais fácil, aprendi a tocar uma música da qual nem gostava tanto para tocar com ele e com outro amigo nosso. Alguns meses depois conheci o Kannu, que curtia rock tanto quanto eu, mas que também não sabia tocar tanto - igual a mim e ao Mineiro.
Começamos a tocar juntos e a fazer apresentações pela cidade (restaurantes, festival de inverno, etc), e algum tempo depois resolvemos renomear o grupo e tocar músicas próprias (sendo uma delas a que linkei lá em cima).

Nossa primeira apresentação, no festival de inverno, em julho de 2007

Apresentação num restaurante, provavelmente em 2007 também

Apresentação no festival de inverno de 2008, quando tínhamos um baterista e resolvemos fazer uma apresentação mais rock'n'roll (com direito a gritos, pulos, caras de maus, e eu com camisa aberta no frio)

Acústico que eu e Mineiro fizemos em 2008 durante um evento cultural
Tempos depois, o Mineiro foi embora de São Luiz para morar em Taubaté (que não é longe) e trabalhar em outro lugar. O Kannu começou a tocar em um grupo sertanejo - o grupo já tem um cd gravado e se apresenta em várias cidades - e foi morar em Lagoinha (20 km de SLP), onde os outros membros da banda moram. Com a enchente, também fui embora. Estou abrigado em Taubaté até me formar, e mesmo assim não pude voltar a tocar com o Mineiro por aqui devido às divergências em nossos horários.
Nenhum de nós três conversa diariamente, e às vezes ficamos um bom tempo sem contato. Aí resolvemos tirar um fim de semana para fazer um 'back to the good old times' lá em Lagoinha, aproveitando que estava tendo um rodeio por lá.
No momento em que o Mineiro falou a frase que destaquei lá em cima eu estava segurando o choro. Depois, quando encontramos o Kannu em sua casa, pegamos violões e baixo e começamos a improvisar as músicas. Começamos com 'Born to be wild', mas depois foi a vez de tocar 'Cartas de baralho'. Quando a música terminou, os três estavam com cara de bunda, e começamos a falar da nossa amizade depois de o Kannu ter dito 'já já eu vou chorar se continuar assim'. Até escrevendo essa parte eu quase chorei.
Tem MUITA gente que passa por nossas vidas, com quem temos contato diariamente, e que por mais que haja conversa, troca de ideias, balada, não é criado um vínculo afetivo assim. Esse é o tipo de pessoa de quem você vai lembrar por um tempo, ter saudade de um momento ou outro, e só.
Os outros, de quem você sempre lembra, e eventualmente fica desanimado pela falta que o contato faz, são aqueles que te dão orgulho quando você diz que são 'irmãos'. São aqueles idiotas que marcam algum programa, e que no final das contas só ficaram bebendo juntos num bar qualquer ou ficaram jogando no computador até o amanhecer enquanto falavam de problemas amorosos e de garotas que mexiam conosco. Essa é a parte mais triste de você ver na marra os ciclos da vida de cada um passando, pois é comum que a linha traçada por cada um separe esse grupo e leve cada pessoa a lugares distintos.
Até hoje, por exemplo, dói ao lembrar de quando fui embora de São Paulo. Passei os meus últimos dias lá com os meus amigos, e nunca vou esquecer da última despedida que tive na noite anterior à minha partida. Estava dentro do elevador com o Renan (que passava o dia no meu apartamento, e eventualmente traçava minhas marmitex), e quando chegamos ao andar no qual ele morava, depois de 20 segundos de silêncio, desabamos no choro, parecendo duas criancinhas. Aí a boadrasta dele, que estava com a porta de casa aberta, veio me abraçar também... devia estar achando que éramos malucos. Acho que essa foi a despedida mais triste que já tive.
Tenho outros grandes amigos de lá também, daqueles que ignoram a técnica do 'abraço de homem' (típico de homem que gosta de abraçar quem não é tão amigo, mas que para não se sentir maricas evita mais de um segundo de contato e cousas do gênero). É abraço forte, com tapas, enquanto um xinga o outro dos mais variados e pesados palavrões possíveis.

Renan e eu... isso deve ser em 2004 ou 2005

Johan, Tico, Marcel, Felipe, Renan, e eu capotando

Marcel, eu, Leon, Johan e Tico, quando eu já não morava mais em São Paulo - virei a noite com eles na capital pra viajar de manhã pra Prainha Branca (noite memorável)

Meu primeiro carnaval em São Luiz do Paraitinga, em 2007, com direito a visita do Marcel e Johan
Agora, depois de tantas fotos e legendas nostálgicas, vem o outro lado da coisa: se eu não tivesse ido embora de São Paulo, eu não teria conhecido o Mineiro e o Kannu, e ninguém da faculdade em que estudo, e por aí vai. É aí que tá a graça da coisa! Em algum momento devemos partir do local em que estamos, mas ao invés de lamentos e mais lamentos pela distância dessas pessoas queridas, devemos nos contentar por termos ensinado algo a elas e vice-versa no tempo em que estávamos próximos, e por sabermos que poderemos ensinar outras coisas a novas pessoas, e com elas aprendermos algo diferente.
Cada ciclo de nossa vida tem um momento certo para começar e terminar, e a cada mudança devemos ter o coração e a mente abertos para recebermos novas pessoas, e, consequentemente, novos aprendizados.
Então, à quem parte de algum lugar, aproveite os novos lugares e as novas pessoas que conhecerá: a saudade de pessoas vivas não deve ser tão dolorosa, pois, por mais longe que estejam, as pessoas terão uma chance de encontro em algum momento. Na verdade, acho que nem a saudade de pessoas mortas deve ser tão dolorosa. As lembranças aparecem, e com elas o choro, mas acho que o que prevalesce são os momentos que as pessoas tiveram juntos. Tem lugares do mundo onde as pessoas até festejam a morte de alguém! Acho que, na atual conjuntura, não é difícil uma pessoa morta ir a um lugar melhor que o mundo de hoje...
PS: apesar da "proximidade" trazida pela internet, é sacal ficar horas conversando virtualmente com quem você costumava encontrar diariamente. Na maioria das vezes eu prefiro conversar vez ou outra com as pessoas, saber que elas estão vivas e inteiras, e deixar crescer a saudade costumeira de quem vivia décadas antes de inventarem a internet. Prefiro assim, ainda mais quando as pessoas que estão distantes não estão TÃO distantes, e posso encontrá-las a qualquer hora (fórmula do 'qualquer hora': tempo livre + dinheiro - faculdade - trabalho de conclusão de curso - estágio = qualquer hora).
PS2: apesar de fazer menção apenas aos amigos aqui, tudo o que falei aqui é aplicável à minha família, principalmente no quesito saudade, visto que dificilmente consigo vê-la. No caso mamãe+gatos(igualmente da família)+eu, a situação é mais agravante, pois passamos vários anos juntos, acostumados a estarmos juntos, e nos afastamos involuntariamente (enchente fdp).
PS3: eu sou péssimo em demonstrar meus sentimentos pessoalmente, acredito que pela infância anti-social que tive, mas uma hora eu ia ter que falar essas coisas, nem que fosse pela internet.
PS4: acho que já dá pra renomear esse post como 'Bíblia 2: o império contra-ataca'
O Mineiro (amigo de São Luiz do Paraitinga) falou isso nesse final de semana, enquanto íamos de ônibus à Lagoinha, para passar o dia com o Kannu (nós três tocávamos juntos). Fazia cerca de um mês que eu não via o Mineiro, e acho que uns seis meses que não via o Kannu.
Eu os conheci logo que mudei para São Luiz: o Mineiro trabalhava como chapeiro e sempre deixava um violão guardado embaixo do carrinho de lanches, e depois de conhecê-lo comecei a levar o meu violão também para tocarmos juntos. Para socializar mais fácil, aprendi a tocar uma música da qual nem gostava tanto para tocar com ele e com outro amigo nosso. Alguns meses depois conheci o Kannu, que curtia rock tanto quanto eu, mas que também não sabia tocar tanto - igual a mim e ao Mineiro.
Começamos a tocar juntos e a fazer apresentações pela cidade (restaurantes, festival de inverno, etc), e algum tempo depois resolvemos renomear o grupo e tocar músicas próprias (sendo uma delas a que linkei lá em cima).

Nossa primeira apresentação, no festival de inverno, em julho de 2007

Apresentação num restaurante, provavelmente em 2007 também

Apresentação no festival de inverno de 2008, quando tínhamos um baterista e resolvemos fazer uma apresentação mais rock'n'roll (com direito a gritos, pulos, caras de maus, e eu com camisa aberta no frio)

Acústico que eu e Mineiro fizemos em 2008 durante um evento cultural
Tempos depois, o Mineiro foi embora de São Luiz para morar em Taubaté (que não é longe) e trabalhar em outro lugar. O Kannu começou a tocar em um grupo sertanejo - o grupo já tem um cd gravado e se apresenta em várias cidades - e foi morar em Lagoinha (20 km de SLP), onde os outros membros da banda moram. Com a enchente, também fui embora. Estou abrigado em Taubaté até me formar, e mesmo assim não pude voltar a tocar com o Mineiro por aqui devido às divergências em nossos horários.
Nenhum de nós três conversa diariamente, e às vezes ficamos um bom tempo sem contato. Aí resolvemos tirar um fim de semana para fazer um 'back to the good old times' lá em Lagoinha, aproveitando que estava tendo um rodeio por lá.
No momento em que o Mineiro falou a frase que destaquei lá em cima eu estava segurando o choro. Depois, quando encontramos o Kannu em sua casa, pegamos violões e baixo e começamos a improvisar as músicas. Começamos com 'Born to be wild', mas depois foi a vez de tocar 'Cartas de baralho'. Quando a música terminou, os três estavam com cara de bunda, e começamos a falar da nossa amizade depois de o Kannu ter dito 'já já eu vou chorar se continuar assim'. Até escrevendo essa parte eu quase chorei.
Tem MUITA gente que passa por nossas vidas, com quem temos contato diariamente, e que por mais que haja conversa, troca de ideias, balada, não é criado um vínculo afetivo assim. Esse é o tipo de pessoa de quem você vai lembrar por um tempo, ter saudade de um momento ou outro, e só.
Os outros, de quem você sempre lembra, e eventualmente fica desanimado pela falta que o contato faz, são aqueles que te dão orgulho quando você diz que são 'irmãos'. São aqueles idiotas que marcam algum programa, e que no final das contas só ficaram bebendo juntos num bar qualquer ou ficaram jogando no computador até o amanhecer enquanto falavam de problemas amorosos e de garotas que mexiam conosco. Essa é a parte mais triste de você ver na marra os ciclos da vida de cada um passando, pois é comum que a linha traçada por cada um separe esse grupo e leve cada pessoa a lugares distintos.
Até hoje, por exemplo, dói ao lembrar de quando fui embora de São Paulo. Passei os meus últimos dias lá com os meus amigos, e nunca vou esquecer da última despedida que tive na noite anterior à minha partida. Estava dentro do elevador com o Renan (que passava o dia no meu apartamento, e eventualmente traçava minhas marmitex), e quando chegamos ao andar no qual ele morava, depois de 20 segundos de silêncio, desabamos no choro, parecendo duas criancinhas. Aí a boadrasta dele, que estava com a porta de casa aberta, veio me abraçar também... devia estar achando que éramos malucos. Acho que essa foi a despedida mais triste que já tive.
Tenho outros grandes amigos de lá também, daqueles que ignoram a técnica do 'abraço de homem' (típico de homem que gosta de abraçar quem não é tão amigo, mas que para não se sentir maricas evita mais de um segundo de contato e cousas do gênero). É abraço forte, com tapas, enquanto um xinga o outro dos mais variados e pesados palavrões possíveis.

Renan e eu... isso deve ser em 2004 ou 2005

Johan, Tico, Marcel, Felipe, Renan, e eu capotando

Marcel, eu, Leon, Johan e Tico, quando eu já não morava mais em São Paulo - virei a noite com eles na capital pra viajar de manhã pra Prainha Branca (noite memorável)

Meu primeiro carnaval em São Luiz do Paraitinga, em 2007, com direito a visita do Marcel e Johan
Agora, depois de tantas fotos e legendas nostálgicas, vem o outro lado da coisa: se eu não tivesse ido embora de São Paulo, eu não teria conhecido o Mineiro e o Kannu, e ninguém da faculdade em que estudo, e por aí vai. É aí que tá a graça da coisa! Em algum momento devemos partir do local em que estamos, mas ao invés de lamentos e mais lamentos pela distância dessas pessoas queridas, devemos nos contentar por termos ensinado algo a elas e vice-versa no tempo em que estávamos próximos, e por sabermos que poderemos ensinar outras coisas a novas pessoas, e com elas aprendermos algo diferente.
Cada ciclo de nossa vida tem um momento certo para começar e terminar, e a cada mudança devemos ter o coração e a mente abertos para recebermos novas pessoas, e, consequentemente, novos aprendizados.
Então, à quem parte de algum lugar, aproveite os novos lugares e as novas pessoas que conhecerá: a saudade de pessoas vivas não deve ser tão dolorosa, pois, por mais longe que estejam, as pessoas terão uma chance de encontro em algum momento. Na verdade, acho que nem a saudade de pessoas mortas deve ser tão dolorosa. As lembranças aparecem, e com elas o choro, mas acho que o que prevalesce são os momentos que as pessoas tiveram juntos. Tem lugares do mundo onde as pessoas até festejam a morte de alguém! Acho que, na atual conjuntura, não é difícil uma pessoa morta ir a um lugar melhor que o mundo de hoje...
PS: apesar da "proximidade" trazida pela internet, é sacal ficar horas conversando virtualmente com quem você costumava encontrar diariamente. Na maioria das vezes eu prefiro conversar vez ou outra com as pessoas, saber que elas estão vivas e inteiras, e deixar crescer a saudade costumeira de quem vivia décadas antes de inventarem a internet. Prefiro assim, ainda mais quando as pessoas que estão distantes não estão TÃO distantes, e posso encontrá-las a qualquer hora (fórmula do 'qualquer hora': tempo livre + dinheiro - faculdade - trabalho de conclusão de curso - estágio = qualquer hora).
PS2: apesar de fazer menção apenas aos amigos aqui, tudo o que falei aqui é aplicável à minha família, principalmente no quesito saudade, visto que dificilmente consigo vê-la. No caso mamãe+gatos(igualmente da família)+eu, a situação é mais agravante, pois passamos vários anos juntos, acostumados a estarmos juntos, e nos afastamos involuntariamente (enchente fdp).
PS3: eu sou péssimo em demonstrar meus sentimentos pessoalmente, acredito que pela infância anti-social que tive, mas uma hora eu ia ter que falar essas coisas, nem que fosse pela internet.
PS4: acho que já dá pra renomear esse post como 'Bíblia 2: o império contra-ataca'
terça-feira, 6 de julho de 2010
A bola rola, o mundo pára
Vou reproduzir aqui um pequeno artigo que escrevi para o Comunicando, o informativo da paróquia da turma que está me abrigando, dirigido pelo meu amigo Jaime. A edição saiu há algum tempo, mas só agora lembrei de passar o texto para cá. É um assunto passível de outras discussões, mas que por ora não aprofundarei. O título do texto é o mesmo do título da postagem.
'Mais uma vez o mundo está parando para ver uma copa do mundo de futebol, o maior evento esportivo que existe. No Brasil, o gosto pelo esporte leva muitos a fazerem contagens regressivas para o início do evento e comprarem parafernálias em verde e amarelo. Tudo para desfrutar de alguma maneira desse evento, que a cada edição apresenta diversos aperfeiçoamentos tecnólogicos, como apresentações em alta definição ou três dimensões, destaques dessa edição do evento.
Essa é a parte acessível a poucos, mas que sempre é destacada. Como se sabe, o Brasil praticamente congela nessa época. As mídias se resumem aos jogos, e os serviços na maioria dos lugares se tornam precários - há empresas que chegam a dispensar os funcionários em dias de jogos da seleção! Ou seja: enquanto a seleção jogar (e não apenas a nossa), muitos brasileiros deixarão seus deveres de lado.
E assim, mais uma vez, os problemas do país ficarão num segundo plano. E isso porque a copa ainda não acontecerá aqui. Mas e como será em 2014, quando a copa for realizada no Brasil? É lamentável ver que, anos antes, a prioridade do país seja injetar bilhões na adaptação de estádios e municípios para receberem o evento. A princípio a estimativa de custo para isso era R$ 714 milhões, mas agora se prevê R$ 17,5 bilhões.
Enquanto isso saúde, educação, e tantos outros setores precisam desse tipo de investimentos. Mesmo assim, os maiores e mais rápidos são na tentativa de fazer o país brilhar aos olhos do resto do mundo, e não de atender as nossas necessidades. Tem alguma coisa errada aí.'
'Mais uma vez o mundo está parando para ver uma copa do mundo de futebol, o maior evento esportivo que existe. No Brasil, o gosto pelo esporte leva muitos a fazerem contagens regressivas para o início do evento e comprarem parafernálias em verde e amarelo. Tudo para desfrutar de alguma maneira desse evento, que a cada edição apresenta diversos aperfeiçoamentos tecnólogicos, como apresentações em alta definição ou três dimensões, destaques dessa edição do evento.
Essa é a parte acessível a poucos, mas que sempre é destacada. Como se sabe, o Brasil praticamente congela nessa época. As mídias se resumem aos jogos, e os serviços na maioria dos lugares se tornam precários - há empresas que chegam a dispensar os funcionários em dias de jogos da seleção! Ou seja: enquanto a seleção jogar (e não apenas a nossa), muitos brasileiros deixarão seus deveres de lado.
E assim, mais uma vez, os problemas do país ficarão num segundo plano. E isso porque a copa ainda não acontecerá aqui. Mas e como será em 2014, quando a copa for realizada no Brasil? É lamentável ver que, anos antes, a prioridade do país seja injetar bilhões na adaptação de estádios e municípios para receberem o evento. A princípio a estimativa de custo para isso era R$ 714 milhões, mas agora se prevê R$ 17,5 bilhões.
Enquanto isso saúde, educação, e tantos outros setores precisam desse tipo de investimentos. Mesmo assim, os maiores e mais rápidos são na tentativa de fazer o país brilhar aos olhos do resto do mundo, e não de atender as nossas necessidades. Tem alguma coisa errada aí.'
terça-feira, 1 de junho de 2010
São Luiz e suas cores
Não podendo relatar detalhadamente, contarei um pouco do que vi na festa do Divino Espírito Santo em São Luiz do Paraitinga. A festa foi maravilhosa. Provavelmente contou com provas de fé muito maiores do que nos outros anos. As novenas foram realizadas na praça central, em um espaço provisório montado pela prefeitura, com um grande toldo, para eventos.
Todas as cadeiras do espaço, que não correspondiam ao número de assentos da igreja matriz, ficavam facilmente ocupadas. Ao redor do espaço, algumas pessoas sentadas nos bancos da praça próximos do local da novena, e dezenas de pessoas em pé com suas bandeiras em mãos sem demonstrar sacrifício algum por não terem aonde sentar durante cerca de uma hora de orações e reflexões.
Achei bem legal o fato de padres jovens terem participado das novenas. A presença de um padre recém-ordenado naquele espaço, naquele momento, deve ter representado um grande sinal de esperança a todos. Depois de tudo o que ocorreu, acho importante ter aquele símbolo jovem simbolizando a possibilidade de reconstruir o que por algum tempo se dera como perdido.
No primeiro dia, houve a tradicional ida ao Império após a novena. A decoração desse ano, sob responsabilidade do Paulinho do Correio, como é conhecido, envolveu o uso de garrafas PET nas luminárias do local. O ambiente era apertado, como de costume, mas estava lindo. A diferença, nesse ano, foi a presença de uma grande imagem da igreja matriz da cidade ali.
A distribuição do afogado - que nesse evento é feita com uma mistura de alimentos, como arroz, macarrão, carne e batata -, dessa vez, foi no mercado municipal. A enchente acabou fazendo a festa recorrer ao costume antigo de tornar o mercadão palco de parte da festividade.
Fotografando a preparação do local para o primeiro dia da distribuição do afogado conheci um italiano gente fina, chamado Lucca. Ele mora em São Paulo atualmente com a esposa, e foi à cidade fotografar o evento como voluntário de um projeto que será realizado na cidade, abordando também a reconstrução. Falei do assunto do meu TCC, e que era voluntário do Jornal da Reconstrução - foi engraçado ver ele abrindo a pochete e tirando de lá a última edição do jornal, perguntando se era naquele jornal que eu trabalhava. Ele pediu uma eventual ajuda na produção do material no qual ele também estava trabalhando.
No dia seguinte ocorreu o encontro das bandeiras. O encontro foi realizado em frente à Santa Casa e à câmara municipal, e poucos minutos depois estavam todos indo ao centro da cidade acompanhados pela banda municipal.
Na semana seguinte fui a cidade na sexta-feira cedo, como de costume, fazer as apurações para o jornal. Como havia um tempo vago, eu e um colega de trabalho visitamos as ruínas da igreja matriz. Fomos acompanhados por uma simpática estagiária da Unesp, que explicou como o serviço estava sendo realizado. Ela disse que a previsão da empresa responsável pelos cuidados no local é de que o espaço esteja limpo em agosto/setembro.
Não sei se é permitido ficar postando imagens do que já foi encontrado por lá (há várias prateleiras com achados - inteiros ou em partes), mas ao menos uma, num espaço próximo a uma das portas de entrada do local, eu vou colocar. Não dá para ver muita coisa, e há muuuito a se fazer por ali ainda. Grande parte dos destroços ainda não foram tocados.
Pouco depois do almoço e uma rápida conversa com professores vindos de fora com uma turma de jovens estudantes, fui à rua vê-los descendo com os bonecões João Paulino e Maria Angu caminhando e fazendo barulho até o mercado municipal.
A proposta daquela escola é fantástica. As crianças foram conhecer a cidade, mas não ficaram apenas ouvindo a história da cidade e de suas festas. Além de participarem animadamente da saída dos bonecões até o mercadão, ao som de um bumbo somado a várias vozes que anunciavam a passagem dos bonecões, as crianças tiveram a oportunidade de produzir o material comumente usado tempos atrás para a edificação das casas: a taipa. Eu me assustei ao ouvir isso, pois NUNCA vi uma escola propor esse tipo de atividade. É admirável ver uma escola dando tanto valor à cultura na hora de educar as crianças.
Já no final da tarde, fiz minhas costumeiras caminhadas por trechos não tão frequentados, e notei que já estava bem mais fácil passar pelo trecho que liga a rodoviária ao centro histórico. Há bem menos terra, e há um caminho nivelado pelo qual pessoas podem facilmente fazer a travessia.
Vi essa senhora passando pelo local, e a acompanhei silenciosamente por um tempo tirando algumas fotos. Depois de algumas fotos, acelerei o passo, e enquanto passava lentamente por ela, ela começou a falar. Eu senti tanta amargura em sua voz, tão fraca, que não sabia se ela começaria a chorar, mas percebi que por dentro ela estava machucada. Durante nossa caminhada no trecho de terra, ela foi explicando que perdeu tudo, e que não sabia bem o que fazer. Só de lembrar desse momento eu quase chorei aqui. Ela contou que agora havia dificuldade em andar pelo centro, pois estava morando no bairro Santa Terezinha (fica num trecho BEM alto e afastado, principalmente para uma senhorinha), e que era estranho andar pela cidade sentindo falta de tanta coisa.
Como de praxe, falei que também fui atingido pela enchente, e mesmo sabendo que o que ela sentiu e sente é, com certeza, muito além do que eu posso entender (é o que falei no texto Memórias, pois ela se habituou a ver certas coisas por décadas, então a perda foi muito mais que da parte material), acredito que explicar isso poderia deixá-la um pouco mais confortável. Talvez ela tenha pensado que pelo menos um pouco do que ela está passando esteja acontecendo comigo também, e que eu a entenderia.
No sábado, infelizmente, não pude ir à festa, e perdi a famosa cavalhada de Catuçaba, que todo ano se apresenta no evento encenando um conflito entre mouros (muçulmano/sarraceno) e cristãos na Idade Média.
No domingo cheguei no início da tarde e acompanhei apresentações de diversos grupos pela cidade. Havia congada, moçambique, e danças para todos os lados, além do tradicional pau-de-sebo chacoalhando para lá e para cá enquanto vários rapazes tentavam subi-lo para alcançar o dinheiro amarrado no seu topo.
Vi também o grupo Manjarra, que faz diversas encenações divertidas durante a festa do Divino. Sempre gostei de fotografá-los pela espontaneidade de suas ações, e pelo modo como o gosto pelo que fazem e as cores que eles portam deixam o cenário mais bonito. Por isso, deixarei aqui uma foto que tirei sentado durante uma encenação deles. As cores nela chamaram a atenção de muita gente, e por isso me senti um grande felizardo fazendo essa captura. Além da beleza, ela tem uma mensagem fundamental: São Luiz voltou a ser colorida.
Fotografando a preparação do local para o primeiro dia da distribuição do afogado conheci um italiano gente fina, chamado Lucca. Ele mora em São Paulo atualmente com a esposa, e foi à cidade fotografar o evento como voluntário de um projeto que será realizado na cidade, abordando também a reconstrução. Falei do assunto do meu TCC, e que era voluntário do Jornal da Reconstrução - foi engraçado ver ele abrindo a pochete e tirando de lá a última edição do jornal, perguntando se era naquele jornal que eu trabalhava. Ele pediu uma eventual ajuda na produção do material no qual ele também estava trabalhando.
No dia seguinte ocorreu o encontro das bandeiras. O encontro foi realizado em frente à Santa Casa e à câmara municipal, e poucos minutos depois estavam todos indo ao centro da cidade acompanhados pela banda municipal.
Não sei se é permitido ficar postando imagens do que já foi encontrado por lá (há várias prateleiras com achados - inteiros ou em partes), mas ao menos uma, num espaço próximo a uma das portas de entrada do local, eu vou colocar. Não dá para ver muita coisa, e há muuuito a se fazer por ali ainda. Grande parte dos destroços ainda não foram tocados.
A proposta daquela escola é fantástica. As crianças foram conhecer a cidade, mas não ficaram apenas ouvindo a história da cidade e de suas festas. Além de participarem animadamente da saída dos bonecões até o mercadão, ao som de um bumbo somado a várias vozes que anunciavam a passagem dos bonecões, as crianças tiveram a oportunidade de produzir o material comumente usado tempos atrás para a edificação das casas: a taipa. Eu me assustei ao ouvir isso, pois NUNCA vi uma escola propor esse tipo de atividade. É admirável ver uma escola dando tanto valor à cultura na hora de educar as crianças.
Já no final da tarde, fiz minhas costumeiras caminhadas por trechos não tão frequentados, e notei que já estava bem mais fácil passar pelo trecho que liga a rodoviária ao centro histórico. Há bem menos terra, e há um caminho nivelado pelo qual pessoas podem facilmente fazer a travessia.
Como de praxe, falei que também fui atingido pela enchente, e mesmo sabendo que o que ela sentiu e sente é, com certeza, muito além do que eu posso entender (é o que falei no texto Memórias, pois ela se habituou a ver certas coisas por décadas, então a perda foi muito mais que da parte material), acredito que explicar isso poderia deixá-la um pouco mais confortável. Talvez ela tenha pensado que pelo menos um pouco do que ela está passando esteja acontecendo comigo também, e que eu a entenderia.
No sábado, infelizmente, não pude ir à festa, e perdi a famosa cavalhada de Catuçaba, que todo ano se apresenta no evento encenando um conflito entre mouros (muçulmano/sarraceno) e cristãos na Idade Média.
No domingo cheguei no início da tarde e acompanhei apresentações de diversos grupos pela cidade. Havia congada, moçambique, e danças para todos os lados, além do tradicional pau-de-sebo chacoalhando para lá e para cá enquanto vários rapazes tentavam subi-lo para alcançar o dinheiro amarrado no seu topo.
Vi também o grupo Manjarra, que faz diversas encenações divertidas durante a festa do Divino. Sempre gostei de fotografá-los pela espontaneidade de suas ações, e pelo modo como o gosto pelo que fazem e as cores que eles portam deixam o cenário mais bonito. Por isso, deixarei aqui uma foto que tirei sentado durante uma encenação deles. As cores nela chamaram a atenção de muita gente, e por isso me senti um grande felizardo fazendo essa captura. Além da beleza, ela tem uma mensagem fundamental: São Luiz voltou a ser colorida.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Um pouco de jornalismo
A princípio, o título desse post era "Títulos e manchetes", para falar um pouco de algumas coisas que vi recentemente, mas percebi que acabei falando um monte de coisa a mais. Por isso, "Um pouco de jornalismo" (meio aleatório) para vocês.
A maneira de abordar determinados assuntos no jornalismo sempre foi uma questão pautada pelas empresas, pelos jornalistas, e pelos estudantes, que às vezes também já se incluem na gama de jornalistas.
Nós sabemos que, em cinquenta e poucos caracteres (na internet não há tanto essa preocupação de limite de caracteres, visto que o espaço é infinito), devemos elaborar um título atrativo.
Se o leitor tiver interesse em ler, seja pelo assunto ou pela atratividade gerada pelo título, ele vai para o primeiro parágrafo da matéria, que geralmente é aquela fórmula manjada do jornalismo: o LEAD (ou lide, aportuguesadamente). Nele consta todas as informações básicas da matéria - as seis perguntas bááásicas, que são Quem, o Quê, Quando, Onde, Como e Por Quê (salvas exceções nas quais uma ou mais dessas perguntas não são tão relevantes).
Se depois de o leitor tiver se atraído pela chamada e pelo lead, ele prosseguirá a leitura. Depois do lead, poderá haver o sub-lead, e por aí vai. Às vezes as matérias podem ser montadas de outra maneira (às vezes os próprios leads podem ser algo menos diretos do que 'O padeiro João vendeu cinquenta pães hoje em sua padaria devido à grande circulação de turistas tailandeses'). Eu, particularmente, me interesso muito mais em escrever reportagens, com aberturas não tão secas, etc.
Pelo que me recordo (não, eu não estava vivo nessa época, mas foi o que me lembro de ter lido), o lead foi criado durante a Segunda Guerra Mundial, época em que havia dificuldades impostas (pela falta de tecnologia, sem falar em bombas caindo por todos os lugares e gente se metralhando pra lá e pra cá) nos campos de guerra, e os soldados responsáveis pelas reportagens (da situação do local) deviam ser breves nos relatos. Daí, tinham que responder especificamente as seis questões. Posteriormente, como vi no novo seriado Band of Brothers, os líderes dos grupos relatavam mais detalhadamente a história de um confronto.
Atualmente, o uso do lead, mas o lead básico do básico mesmo, que fala de uma cueca mas nem especifica a sua cor, é muuuito usado. Os jornais impressos continuam usando-o muito, em uma época na qual eles perderam muito espaço. Para que esperar ler amanhã no jornal com matérias de hoje algo que só contenha as informações mais básicas? Antes da metade do século XX, o rádio, mesmo com toda aquela aparelhagem pesada e complicada, estava saindo à frente do jornalismo na instantaneidade. Posteriormente, a televisão acabou mais ainda com a instantaneidade, e ainda oferecia imagens em movimento. Atualmente, a internet enterrou de vez esse jornalismo básico. Ela é a única que pode relatar, a qualquer hora do dia (pois não depende de uma grade de programação), determinado fato. Sendo assim, todos nós sabemos que o jornal impresso só vai se salvar se começar a investir em textos mais aprofundados, que contenham algo que o rádio, a televisão e a internet ainda não tenham relatado.
Mas enfim, história do jornalismo à parte, o que me fez querer escrever a respeito do jornalismo foi ter visto, em um dia, um título de matéria estranho em um veículo online e duas chamadas em um jornal pequeno da região.
O título estranho que vi é de uma matéria anunciando a festa do Divino Espírito Santo, em São Luiz do Paraitinga. Encontrei o mesmo texto em mais de um lugar (das duas uma: ou o texto é um release, cujo título foi alterado, ou um veículo copiou outro), e em um desses lugares o título é "São Luiz do Paraitinga realiza Festa do Divino para resgatar turistas".
Sabemos que a cidade passou por maus, péssimos bocados, mas há de se tomar cuidado com o que diz. O título, o chamariz primário da matéria, diz que a cidade realizará a festa PARA RESGATAR turistas. Ou seja: por esse título, podemos entender que, se não fosse a importância de se trazer turistas, não haveria festa.
É claro que cidades promovem eventos buscando arrecadar turistas e fundos, mas há outras que são tradicionais, e que independem da presença do turista. A Festa do Divino lá de São Luiz é uma dessas. É a festa mais tradicional da cidade (não é a que atrai mais gente, perdendo apenas para o carnaval - mas, em contrapartida, os turistas do Divino consomem e não sujam tanto a cidade quanto os do carnaval).
Vou falar mais dessa festa em outro post, quando a festa terminar, mas posso adiantar que ela, para os devotos não-comerciantes, não depende de turistas. Diversos eventos acontecem ao mesmo tempo, gerando até reclamações de turistas que falam da "desorganização". Essa "desorganização" é a demonstração de fé de cada um desses grupos. Eles estão lá para fazerem suas manifestações de uma maneira bonita, mas sem se importar em ficar chamando a atenção apenas para eles.
Ou seja: o título distorceu totalmente o foco da festa. Felizmente o texto não seguia esse enfoque.
A outra situação é de um pequeno jornal regional que vi lá no meu estágio, cuja capa havia duas manchetes falando de suicídios. Fala-se tanto que os veículos evitam abordar questões de suicídio, pelo risco de poder influenciar negativamente o público (que tocante os veículos midiáticos - ou uma parte dela - se importando com as pessoas), e nesse pequeno jornal duas das manchetes tratam disso.
Tudo bem, talvez pela simplicidade desse jornal ele não seja capaz de mobilizar as pessoas, e, felizmente, não afetar pessoas com tendências suicidas, mas de qualquer maneira podia ser um tema evitado (se você pensar que o jornal é pequeno, e que duas das manchetes tratavam disso, entende-se que uma parte significante do jornal falava de suicídio).
Aí eu me pergunto a razão de o jornal publicar isso. Falta de assunto? De ética? Às vezes eles até tiveram um bom motivo pra isso. Às vezes não. Podem ter feito propositalmente, querendo chamar a atenção mesmo correndo o risco de serem sensacionalistas, ou até pra dizerem que deram um furo de reportagem, pelo fato de os outros veículos não publicarem isso. É claro que esse argumento seria ridículo, então duvido um pouco que seja isso. E, no final das contas, podem ter feito sem pensar em tudo isso, na maior ingenuidade que um jornalista não deve ter quando publica algo sabendo que o seu texto pode ir looonge e afetar várias pessoas.
Por isso ouvimos tanto os professores (sejam os do espaço universitário ou profissional) falarem para termos cuidado com o que dizemos. Um dia, algo que publicamos pode afetar negativamente uma pessoa, e nós poderemos nem ficar sabendo disso. É por isso que os meios de comunicação são poderosas armas. E não é à toa que chamam a imprensa de Quarto Poder.
A maneira de abordar determinados assuntos no jornalismo sempre foi uma questão pautada pelas empresas, pelos jornalistas, e pelos estudantes, que às vezes também já se incluem na gama de jornalistas.
Nós sabemos que, em cinquenta e poucos caracteres (na internet não há tanto essa preocupação de limite de caracteres, visto que o espaço é infinito), devemos elaborar um título atrativo.
Se o leitor tiver interesse em ler, seja pelo assunto ou pela atratividade gerada pelo título, ele vai para o primeiro parágrafo da matéria, que geralmente é aquela fórmula manjada do jornalismo: o LEAD (ou lide, aportuguesadamente). Nele consta todas as informações básicas da matéria - as seis perguntas bááásicas, que são Quem, o Quê, Quando, Onde, Como e Por Quê (salvas exceções nas quais uma ou mais dessas perguntas não são tão relevantes).
Se depois de o leitor tiver se atraído pela chamada e pelo lead, ele prosseguirá a leitura. Depois do lead, poderá haver o sub-lead, e por aí vai. Às vezes as matérias podem ser montadas de outra maneira (às vezes os próprios leads podem ser algo menos diretos do que 'O padeiro João vendeu cinquenta pães hoje em sua padaria devido à grande circulação de turistas tailandeses'). Eu, particularmente, me interesso muito mais em escrever reportagens, com aberturas não tão secas, etc.
Pelo que me recordo (não, eu não estava vivo nessa época, mas foi o que me lembro de ter lido), o lead foi criado durante a Segunda Guerra Mundial, época em que havia dificuldades impostas (pela falta de tecnologia, sem falar em bombas caindo por todos os lugares e gente se metralhando pra lá e pra cá) nos campos de guerra, e os soldados responsáveis pelas reportagens (da situação do local) deviam ser breves nos relatos. Daí, tinham que responder especificamente as seis questões. Posteriormente, como vi no novo seriado Band of Brothers, os líderes dos grupos relatavam mais detalhadamente a história de um confronto.
Atualmente, o uso do lead, mas o lead básico do básico mesmo, que fala de uma cueca mas nem especifica a sua cor, é muuuito usado. Os jornais impressos continuam usando-o muito, em uma época na qual eles perderam muito espaço. Para que esperar ler amanhã no jornal com matérias de hoje algo que só contenha as informações mais básicas? Antes da metade do século XX, o rádio, mesmo com toda aquela aparelhagem pesada e complicada, estava saindo à frente do jornalismo na instantaneidade. Posteriormente, a televisão acabou mais ainda com a instantaneidade, e ainda oferecia imagens em movimento. Atualmente, a internet enterrou de vez esse jornalismo básico. Ela é a única que pode relatar, a qualquer hora do dia (pois não depende de uma grade de programação), determinado fato. Sendo assim, todos nós sabemos que o jornal impresso só vai se salvar se começar a investir em textos mais aprofundados, que contenham algo que o rádio, a televisão e a internet ainda não tenham relatado.
Mas enfim, história do jornalismo à parte, o que me fez querer escrever a respeito do jornalismo foi ter visto, em um dia, um título de matéria estranho em um veículo online e duas chamadas em um jornal pequeno da região.
O título estranho que vi é de uma matéria anunciando a festa do Divino Espírito Santo, em São Luiz do Paraitinga. Encontrei o mesmo texto em mais de um lugar (das duas uma: ou o texto é um release, cujo título foi alterado, ou um veículo copiou outro), e em um desses lugares o título é "São Luiz do Paraitinga realiza Festa do Divino para resgatar turistas".
Sabemos que a cidade passou por maus, péssimos bocados, mas há de se tomar cuidado com o que diz. O título, o chamariz primário da matéria, diz que a cidade realizará a festa PARA RESGATAR turistas. Ou seja: por esse título, podemos entender que, se não fosse a importância de se trazer turistas, não haveria festa.
É claro que cidades promovem eventos buscando arrecadar turistas e fundos, mas há outras que são tradicionais, e que independem da presença do turista. A Festa do Divino lá de São Luiz é uma dessas. É a festa mais tradicional da cidade (não é a que atrai mais gente, perdendo apenas para o carnaval - mas, em contrapartida, os turistas do Divino consomem e não sujam tanto a cidade quanto os do carnaval).
Vou falar mais dessa festa em outro post, quando a festa terminar, mas posso adiantar que ela, para os devotos não-comerciantes, não depende de turistas. Diversos eventos acontecem ao mesmo tempo, gerando até reclamações de turistas que falam da "desorganização". Essa "desorganização" é a demonstração de fé de cada um desses grupos. Eles estão lá para fazerem suas manifestações de uma maneira bonita, mas sem se importar em ficar chamando a atenção apenas para eles.
Ou seja: o título distorceu totalmente o foco da festa. Felizmente o texto não seguia esse enfoque.
A outra situação é de um pequeno jornal regional que vi lá no meu estágio, cuja capa havia duas manchetes falando de suicídios. Fala-se tanto que os veículos evitam abordar questões de suicídio, pelo risco de poder influenciar negativamente o público (que tocante os veículos midiáticos - ou uma parte dela - se importando com as pessoas), e nesse pequeno jornal duas das manchetes tratam disso.
Tudo bem, talvez pela simplicidade desse jornal ele não seja capaz de mobilizar as pessoas, e, felizmente, não afetar pessoas com tendências suicidas, mas de qualquer maneira podia ser um tema evitado (se você pensar que o jornal é pequeno, e que duas das manchetes tratavam disso, entende-se que uma parte significante do jornal falava de suicídio).
Aí eu me pergunto a razão de o jornal publicar isso. Falta de assunto? De ética? Às vezes eles até tiveram um bom motivo pra isso. Às vezes não. Podem ter feito propositalmente, querendo chamar a atenção mesmo correndo o risco de serem sensacionalistas, ou até pra dizerem que deram um furo de reportagem, pelo fato de os outros veículos não publicarem isso. É claro que esse argumento seria ridículo, então duvido um pouco que seja isso. E, no final das contas, podem ter feito sem pensar em tudo isso, na maior ingenuidade que um jornalista não deve ter quando publica algo sabendo que o seu texto pode ir looonge e afetar várias pessoas.
Por isso ouvimos tanto os professores (sejam os do espaço universitário ou profissional) falarem para termos cuidado com o que dizemos. Um dia, algo que publicamos pode afetar negativamente uma pessoa, e nós poderemos nem ficar sabendo disso. É por isso que os meios de comunicação são poderosas armas. E não é à toa que chamam a imprensa de Quarto Poder.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Óia o jornal
Só atualizei o último post incluindo a quinta edição do jornal.
Ano I - nº 1 - 1ª Quinzena de março
Ano I - nº 2 - 2ª Quinzena de março
Ano I - nº 3 - 1ª Quinzena de abril
Ano I - nº 4 - 2ª Quinzena de abril
Ano I - nº 5 - 1ª Quinzena de maio
Fiquei feliz esses dias ao saber que o texto falando do meu avô foi publicado em um jornal da cidade em que ele vivia, Laranjal Paulista, onde meu pai e meus dois irmãos vivem atualmente.
Com relação ao Jornal da Reconstrução, me empolguei quando disseram que as publicações serão distribuídas em alguns dos maiores veículos do país. Isso pode não garantir um emprego, mas me contento de saber que estamos mostrando ao país que a cidade está se reerguendo. Espero que as outras cidades que têm passado por maus bocados também estejam recebendo a devida atenção.
E é só... só queria disponibilizar os links para o JR online, e agradecer a quem se interessar, ler e divulgar o material.
Ano I - nº 1 - 1ª Quinzena de março
Ano I - nº 2 - 2ª Quinzena de março
Ano I - nº 3 - 1ª Quinzena de abril
Ano I - nº 4 - 2ª Quinzena de abril
Ano I - nº 5 - 1ª Quinzena de maio
Fiquei feliz esses dias ao saber que o texto falando do meu avô foi publicado em um jornal da cidade em que ele vivia, Laranjal Paulista, onde meu pai e meus dois irmãos vivem atualmente.
Com relação ao Jornal da Reconstrução, me empolguei quando disseram que as publicações serão distribuídas em alguns dos maiores veículos do país. Isso pode não garantir um emprego, mas me contento de saber que estamos mostrando ao país que a cidade está se reerguendo. Espero que as outras cidades que têm passado por maus bocados também estejam recebendo a devida atenção.
E é só... só queria disponibilizar os links para o JR online, e agradecer a quem se interessar, ler e divulgar o material.
domingo, 25 de abril de 2010
Memórias
Queria entender o que acontece quando você está habituado a ver algo e, depois de tanto tempo, esse algo some. Acho que esse post é mais reflexivo do que os outros, e nada conclusivo.
Hoje fui para São Luiz cedinho fazer algumas entrevistas que faltavam para escrever uma matéria, e, como sempre saio atrasado de casa, só tomei café da manhã 3 horas depois de acordar (café saudável, por sinal: coca e coxinha).
Enquanto comia, uma senhora entrou na padaria, provavelmente olhou um cartaz com imagens da cidade, e falou "Saudades da minha igrejinha (se referindo à Igreja Matriz)... fui na missa do padre ontem (se não me engano foi a ordenação de um padre), e quando o sino badalou, até chorei".
Anotei a frase no celular para reproduzir aqui. Fiquei pensando no que passa pela cabeça daquela senhora e de tantos outros senhores que nasceram perto da Igreja Matriz, foram batizados nela, cresceram dando voltas na praça à sua frente, se casaram ali, e, tantas décadas depois, veem tapumes enormes, ruínas quase ordenadas após alguns meses de arrumação, e o sino, sobrevivente da tragédia, que já voltou a ser utilizado para convocar as pessoas para os atos religosos.
Em Taubaté, por exemplo, o prédio da CTI (Companhia Taubaté Industrial), ficou algum tempo sem tocar seu sino tradicional de décadas. Ele tocava no horário do almoço dos trabalhadores e em outros horários, como o de entrada e saída dos funcionários se não me engano.
Uma matéria na tevê mostrou senhores de idade que vivem perto do prédio, falando da falta que o sino fazia. Diziam ficar perdidos com a ausência do som que indicava o horário do almoço, dentre outras coisas.
Em São Luiz não é diferente. As pessoas sentiam falta de ouvir o sino badalando, e infelizmente sentirão falta de lugares históricos como a Igreja Matriz e a Capela das Mercês por um bom tempo, até que eles sejam reconstruídos (apesar de que, mesmo com a reconstrução dos locais, o sentimento de vê-los poderá ser diferente).
Conversando com uma amiga na internet nessa madrugada, falei de como tenho saudades de ver minha mãe e os meus gatos diariamente, algo a que me habituei há anos. A resposta dela foi interessante: "Não tenha saudades, você os tem."
Às vezes eu mesmo penso nisso, ainda mais pensando que os meus gatos não eram prioridade nos resgates da tragédia no começo do ano. Até parece que os bombeiros se dariam o trabalho de ficar pegando os gatos. E mesmo assim minha mãe deu um jeito de levar três deles a um lugar seguro, e os outros dois sobreviveram em casa mesmo, sendo que esses dois são a Mia, que tem quase 20 anos - é uma senhorinha -, e o Faraó, que é o mais lerdinho para pensar. Família ninja é outra coisa.
De qualquer maneira, a frase dita a mim, curta e direta, me ajudou mais a ver o lado bom da coisa. Se não, eu nem teria lembrado dela.
É claro que não é a mesma coisa o meu relacionamento com minha mãe e meus gatos, e as pessoas com os casarões e igrejas da cidade, nem pelo sentimento, pois o meu atualmente é de distância, e o delas é de perda.
Como vivi 18 anos em São Paulo, sendo 10 deles em um condomínio, meu maior apego patrimonial foi com o local em que vivi. Quando passo por lá, dá aquele sentimento de volta no tempo. Mas o condomínio ainda está lá.
Então por mais que eu já tenha tido minhas experiências, elas não se comparam ao que os luizenses, principalmente os de idade, sentem com essa perda. É algo que, naturalmente, nem eles conseguem explicar tão fielmente, por mais que se empenhem em demonstrar o tamanho da perda.
Me bateu essa curiosidade danada hoje... só queria entender o que acontece quando você está habituado a ver algo e, depois de tanto tempo, esse algo some...
Hoje fui para São Luiz cedinho fazer algumas entrevistas que faltavam para escrever uma matéria, e, como sempre saio atrasado de casa, só tomei café da manhã 3 horas depois de acordar (café saudável, por sinal: coca e coxinha).
Enquanto comia, uma senhora entrou na padaria, provavelmente olhou um cartaz com imagens da cidade, e falou "Saudades da minha igrejinha (se referindo à Igreja Matriz)... fui na missa do padre ontem (se não me engano foi a ordenação de um padre), e quando o sino badalou, até chorei".
Anotei a frase no celular para reproduzir aqui. Fiquei pensando no que passa pela cabeça daquela senhora e de tantos outros senhores que nasceram perto da Igreja Matriz, foram batizados nela, cresceram dando voltas na praça à sua frente, se casaram ali, e, tantas décadas depois, veem tapumes enormes, ruínas quase ordenadas após alguns meses de arrumação, e o sino, sobrevivente da tragédia, que já voltou a ser utilizado para convocar as pessoas para os atos religosos.
Em Taubaté, por exemplo, o prédio da CTI (Companhia Taubaté Industrial), ficou algum tempo sem tocar seu sino tradicional de décadas. Ele tocava no horário do almoço dos trabalhadores e em outros horários, como o de entrada e saída dos funcionários se não me engano.
Uma matéria na tevê mostrou senhores de idade que vivem perto do prédio, falando da falta que o sino fazia. Diziam ficar perdidos com a ausência do som que indicava o horário do almoço, dentre outras coisas.
Em São Luiz não é diferente. As pessoas sentiam falta de ouvir o sino badalando, e infelizmente sentirão falta de lugares históricos como a Igreja Matriz e a Capela das Mercês por um bom tempo, até que eles sejam reconstruídos (apesar de que, mesmo com a reconstrução dos locais, o sentimento de vê-los poderá ser diferente).
Conversando com uma amiga na internet nessa madrugada, falei de como tenho saudades de ver minha mãe e os meus gatos diariamente, algo a que me habituei há anos. A resposta dela foi interessante: "Não tenha saudades, você os tem."
Às vezes eu mesmo penso nisso, ainda mais pensando que os meus gatos não eram prioridade nos resgates da tragédia no começo do ano. Até parece que os bombeiros se dariam o trabalho de ficar pegando os gatos. E mesmo assim minha mãe deu um jeito de levar três deles a um lugar seguro, e os outros dois sobreviveram em casa mesmo, sendo que esses dois são a Mia, que tem quase 20 anos - é uma senhorinha -, e o Faraó, que é o mais lerdinho para pensar. Família ninja é outra coisa.
De qualquer maneira, a frase dita a mim, curta e direta, me ajudou mais a ver o lado bom da coisa. Se não, eu nem teria lembrado dela.
É claro que não é a mesma coisa o meu relacionamento com minha mãe e meus gatos, e as pessoas com os casarões e igrejas da cidade, nem pelo sentimento, pois o meu atualmente é de distância, e o delas é de perda.
Como vivi 18 anos em São Paulo, sendo 10 deles em um condomínio, meu maior apego patrimonial foi com o local em que vivi. Quando passo por lá, dá aquele sentimento de volta no tempo. Mas o condomínio ainda está lá.
Então por mais que eu já tenha tido minhas experiências, elas não se comparam ao que os luizenses, principalmente os de idade, sentem com essa perda. É algo que, naturalmente, nem eles conseguem explicar tão fielmente, por mais que se empenhem em demonstrar o tamanho da perda.
Me bateu essa curiosidade danada hoje... só queria entender o que acontece quando você está habituado a ver algo e, depois de tanto tempo, esse algo some...
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